As comunidades socialistas devem ser organizadas desse seguinte modo: deve ter um governo eleito por outros membros da comunidade através do parlamentarismo, deve ter escolas, deve ter uma guarda para não deixar soldados e informantes do sistema entrar, deve ter uma praça para ter assembleias para se tomar decisões gerais e também templo de todas as religiões comandado por capelães e padres de esquerda e hospitais para tratar os doentes da comunidade e dormitórios masculinos e femininos para os jovens a partir de 15 anos sendo separados e um dormitório para pessoas em relacionamento estáveis tanto casais como relacionamento poliamor e casas noturnas financiadas pela a comunidade e todas as comunidades devem decidir se vão sobreviver através de manufatura ou agricultura sendo que todos os membros da comunidade terão que trabalhar.
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quinta-feira, 16 de janeiro de 2014
quarta-feira, 15 de janeiro de 2014
O Socialismo e as Igrejas -Rosa Luxemburgo
Desde o momento em que os trabalhadores do nosso país e da Rússia começaram a lutar corajosamente contra o governo czarista e contra os exploradores capitalistas, notamos cada vez com mais freqüência que os padres, nos seus sermões, se lançam contra os trabalhadores que lutam. É com extraordinário vigor que o clero combate os socialistas e tenta, por todos os meios, minimizá-los aos olhos dos trabalhadores. Os crentes que vão à igreja, nos domingos e dias festivos, são compelidos, cada vez com mais freqüência, a ouvirem um violento discurso político, uma verdadeira denúncia do Socialismo, em vez de ouvirem um sermão e nele obterem uma consolação religiosa. em vez de confortarem as pessoas que estão cheios de preocupações, e cansadas pela vida difícil, e que vão à igreja com fé no Cristianismo, os padres fulminam os trabalhadores que estão em greve e os opositores do Governo; e ainda mais, exortam-nos a suportar a pobreza e a opressão com humildade e paciência. Transformaram a igreja e o púlpito num lugar de propaganda política.
Os trabalhadores podem convencer-se facilmente que a luta do clero contra os sociais democratas(*) não é de modo algum provocada por estes. Os sociais democratas propõem-se, como objetivo, unirem-se e organizarem os trabalhadores na luta contra o capital, isto é, contra os exploradores que lhes sugam a última gota de sangue, e na luta contra o governo czarista que impede a libertação do povo. Mas nunca s sociais democratas conduzem os trabalhadores a lutar contra o clero ou tentar interferir com as crenças religiosas; de modo nenhum! Os sociais democratas, de todo o mundo e do nosso próprio país, consideram a consciência e as opiniões pessoais como sendo sagradas.
Todo homem pode ter aquela fé e aquelas opiniões que lhe pareçam capazes de assegurar a felicidade. Ninguém tem o direito de perseguir ou atacar a opinião religiosa particular dos outros. Isto é o que os socialistas pensam. E é por esta razão, entre outras, que os socialistas animam todo o povo a lutar contra o regime czarista, que está continuamente a violentar a consciência das pessoas, perseguindo católicos, católicos russos [1] , judeus, heréticos e livres pensadores. São precisamente os sociais democratas que aparecem mais fortemente em defesa da liberdade de consciência. Portanto, pareceria que o clero tinha obrigação de dar a sua ajuda aos sociais democratas que estão a tentar aliviar o povo oprimido. Se entendermos devidamente os ensinamentos que os socialistas trazem à classe trabalhadora, o ódio do clero contra eles torna-se ainda menos compreensível.
Os sociais democratas propõem-se por fim à exploração do povo pelos ricos. Pensar-se-ia que os servidores da igreja deveriam ter sido os primeiros a desempenhar-se desta tarefa, mais do que os sociais democratas. Não é Jesus Cristo (de quem os padres são servidores) quem ensina que "é mais fácil um camelo passar pelo furo de uma agulha que um rico entrar no Reino dos Céus"? [2] Os sociais democratas tentam trazer a todos os países regimes sociais baseado na igualdade, liberdade e fraternidade de todos os cidadãos. Se o clero realmente deseja que o princípio "Ama o teu próximo como a ti mesmo"seja aplicado na vida real, por que é que não recebe bem e com entusiasmo a propaganda dos sociais democratas? Os sociais democratas tentam, através de uma luta desesperada e da educação e organização do povo, subtraí-lo à opressão em que se encontra e oferecer-lhe um melhor futuro para os filhos. Todos devem admitir que, neste ponto, o clero deveria abençoar os sociais democratas, pois não é ao clero que eles servem, e sim a Jesus Cristo, que diz que "o que fizeres aos pobres é a mim que o fazeis"?[3]
Contudo vemos o clero, por um lado, excomungado e perseguindo os sociais democratas e, por outro, mandando os trabalhadores sofrer com paciência, isto é, deixando-os pacientemente ser explorados pelos capitalistas. O clero atira-se violentamente contra os socialistas democratas, exorta os trabalhadores a não se revoltarem contra os dominadores, mas a submeter-se à opressão deste governo que mata o povo indefeso, que manda para a monstruosa carnificina da guerra milhões de trabalhadores, que persegue católicos. Católicos russos e "velhos crentes" [4] . Assim, o clero, que se torna o porta-voz dos ricos, o defensor da exploração e opressão, põe-se a si próprio em flagrante contradição com a doutrina cristã. Os bispos e os padres não são os propagadores dos ensinamentos cristãos, mas os adoradores do Bezerro de Ouro [5] e do chicote que açoita os pobres e indefesos.
Além disso, todos sabem que os próprios padres tinham proveito do trabalhador,extraem-lhe dinheiro por ocasião do batismo, casamento e funeral. Quantas vezes têm acontecido que o padre, chamado à cabeceira da cama de um doente para administrar os últimos sacramentos, se recusou a ir lá antes de serem pagos os seus "honorários"? O trabalhador vai, desesperado, vender ou hipotecar os seus últimos bens para ser capaz de dar uma consolação ao seu parente.
É verdade que encontramos sacerdotes de outra espécie. Existem alguns que estão cheios de bondade e misericórdia e que não procuram lucros; estes estão sempre prontos a ajudar os pobres. Mas devemos admitir que são, sem dúvida, raros e que podem ser olhados da mesma maneira que graúnas brancas. A maior parte dos padres, de faces rosadas, curvam-se e saúdam cortesmente os ricos e poderosos, perdoando-lhe silenciosamente toda depravação a e toda a iniqüidade. Para com os trabalhadores, o clero comporta-se de maneira bem diferente: pensa apenas em espezinha-los sem piedade; em sermões ríspidos condenam a "cobiça" dos trabalhadores quando estes nada mais fazem do que defender-se contra os erros do capitalismo. A espantosa contradição entre as ações do clero e os ensinamentos do cristianismo deve levar-nos todos a refletir. Os trabalhadores espantam-se de como na luta da sua classe pela emancipação vão encontrar nos servidores as Igreja inimigos e não aliados. Como é que a Igreja desempenha o papel de defesa da opressão rica e sangrenta, em vez de ser o refúgio dos explorados? Para entender esse fenômeno estranho, basta lançar os olhos sobre a história da igreja e examinar a evolução pela qual ela passou ao longo dos séculos.
II
Os sociais democratas desejam pôr em execução o estado de "Comunismo"; é principalmente isso que o clero tem contra eles. Em primeiro lugar, é chocante notar que os padres de hoje, que combatem o comunismo, condenam, na realidade, os primeiros apóstolos cristãos. Estes não passaram, de fato, de ardentes comunistas.
A religião crista desenvolveu-se, como é bem conhecido, na Roma antiga, no período do declínio do império, que fora, antes, rico e poderoso, compreendendo os países que são hoje a Itália e a Espanha, parte da França, parte da Turquia, a Palestina e outros territórios. O estado de Roma, na época do nascimento de Jesus Cristo, parecia-se muito com o da Rússia czarista. Por um lado, ali vivia um punhado de gente rica, gozando da luxúria e todos os prazeres; por outro lado, uma enorme massa de pobres apodrecia na pobreza; sobretudo um governo despótico, assentado na violência e na corrupção, exercia uma vil opressão. Todo o império Romano foi mergulhado em completa desordem e cercado por ameaçadores inimigos externos: a soldadesca desenfreada, no poder, praticava as suas crueldades sobre a população desgraçada; a província estava deserta, a terra jazia abandonada, as cidades, especialmente Roma, a capital, estava cheia de uma pobreza chocante que erguia os olhos carregados de ódio para os palácios dos ricos; o povo estava sem pão, sem abrigo, sem vestuário, sem esperança e sem possibilidades de sair de sua pobreza.
Há apenas uma diferença entre Roma na sua decadência e o império dos czares; Roma nada sabia de capitalismo; não existia ali a indústria pesada. Naquele tempo, a escravatura era a ordem de coisas estabelecidas em Roma. As famílias nobres, os ricos, os financeiros satisfaziam todas as suas necessidades pondo a trabalhar os escravos aprisionados nas guerras. Com o andar dos tempos, estas pessoas ricas tinham deitado a mão a quase todas as províncias da Itália, espoliando da terra os camponeses. Como se apropriavam de cereais em todas as províncias conquistadas, como tributo sem custo, davam-se ao luxo de abandonar, nos seus próprios estados, plantações magníficas, vinhas, pastagens, pomares e ricos jardins, cultivados por exércitos de escravos a trabalhar debaixo de chicote do capataz. Assim se havia formado em Roma um exército numerosos dos que nada possuíam – o proletariado [6] -, não tendo mesmo a possibilidade de vender a força do seu trabalho. Este proletariado, vindo do campo, não podia, ser absorvido pelas empresas industriais como acontece hoje; tornaram-se vítimas da pobreza desesperada e foram reduzidos à mendicidade. Esta numerosa massa popular, morrendo de fome, sem trabalho, enchendo os subúrbios e os espaços livres e as ruas de Roma, constituía um perigo permanente para o governo e para as classes possuidoras. Portanto, o governo sentiu-se compelido, no seu próprio interesse, a aliviar a pobreza. De tempos em tempo, distribuía ao proletariado o cereal e outros gêneros alimentícios armazenados nos celeiros do Estado. Mais, para fazer o povo esquecer as suas amarguras, oferecia-lhe espetáculos gratuitos de circo. Ao contrário do proletariado do nosso tempo, que mantém toda a sociedade pelos seus trabalhos, o enorme proletariado de Roma existia pela caridade.
Eram os escravos miseráveis, tratados como bestas, quem trabalhava para a sociedade romana. Neste caos de pobreza e degradação, um punhado de magnatas romanos passava seu tempo em orgias e devassidão. Não havia possibilidade de sair destas monstruosas condições sociais. O proletariado queixava-se e ameaçava, de vez em quando revoltou-se, mas uma classe de mendigos, vivendo das migalhas caídas da mesa dos senhores, não podia estabelecer uma nova ordem social. Além disso, os escravos que mantinham com o seu trabalho toda a sociedade, estavam muito espezinhados, bastante dispersos, demasiado esmagados pelo jugos, tratados como bestas e viviam bastante isolados das outras classes para serem capazes de transformar a sociedade. Revoltaram-se muitas vezes contra os seus patrões, tentaram libertar-se em batalhas sangrentas, mas o exercito romano esmagou sempre estas revoltas, esmagando os escravos aos milhares e condenando-os à morte na cruz.
Nesta sociedade a desmoronar-se, onde não existe saída desta trágica situaçao para o povo, nem esperança alguma de uma vida melhor, os desgraçados voltam-se para o Céu procurando nele a salvação.a religião crista aparecia a estes infelizes seres como um cintode salvação, uma consolação e um encorajamento e tornou-se, logo desde o princípio, a religião dos proletários romanos. Em conformidade com a posição material dos homens pertencentes a esta classe, os primeiro cristãos fizeram a proposta da propriedade em comum – o comunismo. O que é que poderia ser mais natural? As pessoas careciam dos meios de subsistência e estavam a morrer de pobreza. Uma religião que defendia o povo pedia que os ricos partilhassem com os pobres as riquezas que devem pertencer a todos e não a um punhado de pessoas privilegiadas; uma religião que pregava a igualdade de todos os homens teria grande sucesso. Contudo, isto nada tem em comum com as propostas atuais dos sociais democratas, com vista a transformação em propriedade comum dos instrumentos de trabalho, dos meios de produção, para que toda a humanidade possa trabalhar e viver em unidade harmoniosa.
Vimos que os proletários romanos não vivam do trabalho, mas das esmolas que o governo distribuía. Assim, a exigência, pelos cristãos, da coletivização da propriedade, não diz respeito aos meios de produção, mas aos bens de consumo. Eles não pediam que a terra, as oficinas e os instrumentos de trabalho se tornassem propriedade coletiva, mas apenas que tudo deveria ser repartido entre eles, casas, roupas, alimentos e os produtos acabados mais necessários à vida. Os comunistas cristãos não se preocuparam nada em inquirir acerca da origem destas riquezas. O trabalho de produção recaiu sempre sobre os escravos. O povo cristão desejava apenas que os que possuíam a riqueza abraçassem a religião crista e fizessem das suas riquezas propriedade comum, para que todos pudessem gozar destas coisas boas em igualdade e fraternidade.
Foi, na verdade, deste modo que as primeiras comunidades cristas se organizaram. Um contemporâneo escreveu: "Estas pessoas não acreditam em fortunas, mas pregam a propriedade coletiva e nenhuma de entre elas possui mais do que as outras. Quem desejar entrar na sua ordem é obrigado a pôr a sua fortuna como propriedade comum a essas mesmas pessoas. E pro isso que não há entre eles nem pobreza nem luxo – todos possuindo tudo em comum, como irmãos. Não vivem numa cidade à parte, mas em cada uma têm casas para eles próprios. Se quaisquer estrangeiros pertencentes à sua religião aparecem, repartem a propriedade com eles e podem beneficiar dela como se fosse propriamente sua. Essas pessoas, mesmo que desconhecidas anteriormente uma das outras, dão as boas vindas uns aos outros e as suas relações as muito amigáveis".
Quando viajam não levam nada senão uma arma para se defender dos ladrões. Em cada cidade têm o seu próprio administrador, que distribui roupa e alimento aos viajantes. Negócio não existe entre eles. Contudo, se um dos membros oferece algum objeto de que ele precisa, recebe outros objetos em troca. Mas também cada um pode pedir o que precisa mesmo que não possa dar em troca".
Lemos nos "Atos dos Apóstolos" (IV 34, 35) a seguinte descrição da primeira comunidade de Jerusalém:
"Entre eles não havia ninguém necessitado, pois todos os que possuíam terras ou casas vendiam-nas, traziam o produto da venda e depositavam-no aos pés dos Apóstolos. E a cada um era distribuído de acordo com a sua necessidade".
Em 1780, o historiador alemão Vogel escreveu quase a mesma coisa a cerca dos primeiros cristãos: "De acordo com a regra, todo cristão tinha direito à propriedade de todos os membros da comunidade, caso quisesse, podia pedir que os membros mais ricos dividissem a sua fortuna com ele, de acordo com as suas necessidades. Todo o cristão podia fazer uso da propriedade dos seus irmãos. Assim, os cristãos que não tinham casa podiam exigir do que tinha duas ou três que os recebesse; o proprietário conservava para si próprio apenas a sua própria casa. Mas por causa da comunidade de gozo dos bens, tinha de dar-se habitação àquele que a não tinha".
O dinheiro era colocado em caixa comum e um membro da sociedade. Especialmente escolhido para esse fim, dividia a fortuna coletiva entre todos. Mas sto não era tudo. Entre os primeiros cristãos o comunismo foi levado tão longe que eles tomavam as suas refeições em comum. A sua vida familiar era portanto abolida; todas as famílias cristas, numa sociedade, viviam juntas, como uma única grande família.
Para terminar acrescentamos que certos padres atacam os sociais democratas alegando que somos a favor da comunidade de mulheres. Obviamente que isto é uma grande mentira,proveniente da ignorância ou da irado clero. Os sociais democratas consideram isso como uma distorção vergonhosa e bestial do casamento. E contudo esta prática foi usual entre os primeiros cristãos [7] .
Deste modo, os cristãos do I e II século foram fervorosos adeptos do comunismo. Mas este comunismo era baseado no consumo de produtos acabados e não no trabalho, e mostrou-se incapaz de reformar a sociedade e de pôr fim à desigualdade entre os homens e de derrubar a barreira que separa ricos e pobres. Por isso, exatamente como antes, as riquezas criadas pelo trabalho – para toda a sociedade – era fornecido pelos escravos. O povo, desprovido de méis de subsistência, recebia apenas esmolas.
Enquanto uns poucos (em proporção com a massa do povo) possuírem exclusivamente para seu próprio uso todas as terras cultiváveis, florestas e pastagens, os animais do campo e as casa de lavoura, todas as oficinas, ferramentas e matérias de produção, não pode haver qualquer espécie de igualdade entre os homens. Em tais condições, a sociedade, evidentemente, encontra-se dividida em duas classes, os ricos e os pobres, os do luxo e os da pobreza. Suponhamos, por exemplo, que os ricos proprietários, influenciados pela doutrina crista, oferecessem para distribuir para o povo todas as riquezas que possuíam em forma de dinheiro, cereais, frutas, vestuário e animais. Qual seria o resultado? A pobreza desapareceria por algumas semanas e , durante este tempo, a população poderia alimentar-se e vestir-se. Mas os produtos acabados são rapidamente consumidos. Após um pequeno lapso de tempo, as pessoas, tendo consumido as riquezas distribuídas, teriam uma vez mais as mãos vazias. Os proprietários da terra e dos instrumentos de produção podiam produzir mais, graças ao poder laboral dos escravos, e assim nada se mudaria. Bem. Aqui está porque os sociais democratas consideram estas coisas de um modo diferente dos comunistas cristãos. Eles dizem: "Não queremos que os ricos repartam com os pobres: não queremos nem caridade nem esmolas; ambas as coisas são incapazes de impedir o retorno da desigualdade entre os homens. Não é de modo algum uma partilha entre ricos e pobres que nós desejamos, mas a completa supressão de ricos e pobres". Isto é possível desde que as fontes de toda a riqueza, a terra, em comum com todos os outros meios de produção e instrumentos de trabalho, se tornem propriedade coletiva do povo trabalhador que irá produzir para si próprio, de acordo com as necessidades de cada um. Os primeiros cristãos acreditaram que podiam remediar a pobreza do proletariado por meio das riquezas oferecidas pelos possuidores. Isso seria deitar água numa peneira! O comunismo cristão foi não só incapaz de mudar ou melhorar a situação econômica, como não substituiu.
Ao principio, quando os seguidores do novo Salvador constituíam um pequeno grupo na sociedade romana, a divisão do pecúlio comum, as refeições em comum e o viver debaixo do mesmo teto, eram praticáveis. Mas quando o numero de cristãos se espalhou pelo território do Império, esta vida comunitária dos seus partidários tornou-se mais difícil. Em breve desapareceu o costume das refeições comuns e a divisão dos bens tomou um novo aspecto. Os cristãos não mais viveram como uma família; cada um tomou cuidado da sua própria propriedade e já não ofereciam o total dos seus bens à comunidade, mas apenas o supérfluo. As ofertas dos mais ricos de entre eles ao organismo geral, perdendo o seu caráter de participação numa vida comum, em breve se transformaram em simples "esmolas", desde que os cristãos ricos deixaram de fazer caso da propriedade comum e passaram pôr ao serviço dos outros apenas uma parte do que tinham, parte que podia ser maior ou menor, condoante a boa vontade do doador. Assim, no coração do comunismo cristão, apareceu a diferença análoga à que reinava no Império Romano e contra a qual os primeiros cristãos tinham combatido. Em breve foram apenas os cristãos pobres – os proletários – que tomaram parte em refeições comuns; os ricos, tendo oferecido uma parte da sua abundancia, conservavam-se à parte. Os pobres viviam das esmolas atiradas pelos ricos e a sociedade tornou-se outra vez naquilo que tinha sido. Os cristãos não tinham mudado a vontade dos ricos.
Os padres da Igreja lutaram muito ainda, com palavras escaldantes, contra esta penetração da desigualdade social na comunidade crista, flagelando os ricos e exortando-os a voltarem ao comunismo dos primeiros Apóstolos.
S. Basílio, no Século IV depois de Cristo, pregou assim contra os ricos:
"Miseráveis, como vos ireis justificar diante do Juiz do Céu? Vós dizeis-me: "Qual é a nossa falta, quando guardamos o que nos pertence"? eu pergunto-vos: "Como é que arranjastes isso a que chamais de vossa propriedade? Como é que os possuidores se tornam ricos, senão tomando posse das coisas que pertence a todos? Se todos tomassem apenas o que estritamente necessitam, deixando o resto aos outros, não haveria nem ricos nem pobres".
Foi S. João Crisóstomo, patriarca de Constantinopla, (nascido em Antioquia em 347, falecido, no exílio, na Armênia, em 407) quem pregou mais ardentemente aos cristãos para regressarem ao primeiro comunismo dos Apóstolos. Este célebre pregador, na sua 11ª homilia sobre o Atos dos Apóstolos, disse:
"E havia uma grande caridade entre eles ( os Apóstolos); ninguém era pobre entre eles. Ninguém considerava como seu o que lhe pertencia, todas as suas riquezas estavam em comum... uma caridade existia em todos eles. Esta caridade, consistia em que não havia pobre entre eles, de tal modo que os tinham bens apressavam-se a desprender-se deles. Não dividiam as suas fortunas em duas partes, dando uma e guardando a outra; davam o que tinham. Assim não havia desigualdade entre eles. Todos viviam em grande abundancia. Tudo se fazia com o maior respeito. O que davam não passava da mão do doador para a mão do que recebia; as suas dádivas eram sem ostentação; traziam os bens aos pés dos apóstolos que se tornavam os controladores e donos deles e que os usavam, daí para o futuro, como bens da comunidade e já não como propriedade de indivíduos. Por este meio cortaram a possibilidade de vã glória. Ah! Por que é que se terão perdido estas tradições? Ricos e pobres poderiam todos tirar proveito destes costumes piedosos e uns aos outros sentiríamos o mesmo prazer em nos conformarmos com eles. Os ricos não empobreceriam ao desprenderem-se das suas posses, e os pobres seriam esquecidos... Mas tentemos dar uma idéia exata do que se deveria fazer... Ora, suponhamos – e nem pobres nem ricos precisam se alarmar, pois eu estou apenas a supor – suponhamos que vendemos tudo o que nos pertence para pormos o produto da venda numa conta comum. Que somas de ouro se amontoariam! Não sei dizer com exatidão quanto isso iria dar; mas se todos entre nós, sem distinção de sexo, trouxéssemos os nossos tesouros, se vendêssemos os campos, as propriedades, as casas – não falo de escravos, pois não havia nenhum na comunidade cristã e os que houvesse tornavam-se livres – talvez, se todos fizessem o mesmo, creio que conseguiríamos centenas de milhar de libras de ouro, milhões, enormes valores.
"Bem. Quantas pessoas pensam que vivem nesta cidade? Quantos cristãos? Concordam em que haja uns cem mil? O resto será constituído por judeus e gentios. Quantos não conseguiríamos unir? Ora, se contássemos os pobres, quantos seriam? Cinqüenta mil necessitados, no máximo. O que seria necessário para os alimentar em cada dia? Julgo que a despesa não seria excessiva, se o fornecimento e o consumo da alimentação fossem organizados em comum. Dir-se-á ta;vez: "mas o que será de nós quando estes gêneros estiverem consumidos?" Mas o quê? Isso poderia acontecer? A graça de deus não seria mil vezes mais abundante? Não estaríamos nós a fazer um céu na terra? Se anteriormente esta comunidade de bens existiu entre três a cinco mil fiéis e teve tão bons resultados e baniu a pobreza entre eles por que não resultaria numa grande multidão como esta? E entre os próprios pagãos, quem não se apressaria a aumentar o tesouro em comum? E entre o tesouro comum? A riqueza que é possuída por várias pessoas é muito mais fácil e rapidamente gasta: a difusão da propriedade é a causa da pobreza. Tomemos como exemplo uma família composta de marido, esposa e dez filhos, a esposa ocupando-se em fiar a lã, o marido trazendo do seu trabalho fora de casa; digam-me em que gastaria mais esta família, se vivendo em comum ou vivendo separadamente. Obviamente, se estivessem separados. Dez casas, dez mesas, dez criados e dez subsídios especiais seriam necessários para crianças se vivessem separados. O que é que se faria se possuíssem muitos escravos? Não é verdade que para reduzir as despesas se iria aumentá-los numa mesa comum? A divisão é uma causa de empobrecimento; a concórdia e a unidade de vontades é uma causa de riquezas.
"Nos mosteiros, ainda se vive como na primitiva Igreja. E quem morre de fome ali? Quem é que ali não encontra o bastante para comer? Contudo os homens do nosso tempo temem viver dessa maneira mais do que temem cair no mar! Por que é que não tentamos? Temê-lo-íamos. Que grande ato seria esse! Se alguns fiéis, uns escassos oito mil, gostaram, na presença de todo o mundo, onde não tinham senão inimigos, de fazer uma corajosa tentativa de viver em comum, sem qualquer auxílio externo, quanto o melhor o podíamos os fazer hoje, agora que já cristãos em todo o mundo? Permaneceria um único gentio? Nenhum, creio eu. Nós atrai-los-íamos todos e ganhá-lo-íamos para nós" [8] .
Estes ardentes sermões de S. João Crisóstomo foram em vão. Os homens na não mais tentaram estabelecer o Comunismo nem em Constantinopla, nem em parte nenhuma. Ao mesmo tempo que o cristianismo se expandia e se tornava, em Roma, depois do século IV, a religião dominante, os fiéis distanciavam-se cada vez mais do exemplo dos primeiros Apóstolos. Mesmo dentro da própria comunidade cristã, a desigualdade de bens entre os fiéis cresceu.
De novo, no século VI, Gregório, O grande, disse:
"Não é, de modo algum, bastante não roubar a propriedade dos outros; é errado conservar para si próprio a riqueza que Deus criou para todos. Aquele que não dá aos outros o que possui é um assassino; quando guarda para seu próprio uso o que proveria os pobres, pode dizer-se que está a matar os que podiam ter vivido da sua abundância; quando repartimos com os que estão sofrendo, nós não damos o que nos pertence, mas o que lhes pertence. Isto não é um ato de misericórdia, mas o pagamento de uma dívida".
Estes apelos foram infrutíferos. Mas a culpa não foi, de modo algum, dos cristãos desses dias, que na verdade correspondiam mais às palavras dos Padres da Igreja do que os cristãos de hoje. Não foi a primeira vez na história da humanidade que as condições econômicas se mostraram elas próprias mais fortes que belos discursos.
O Comunismo, esta comunidade de consumo de bens, que os primitivos cristãos proclamaram, não podia ser posta em prática sem o trabalho comum de toda a população, na terra, como propriedade comum, e também em oficinas comunais. No período dos primeiros cristãos, era impossível iniciar o trabalho comunal (com meios comunais de produção) porque, como nós já afirmamos., o trabalho baseava-se, não em homens livres, mas em escravos que viviam à margem da sociedade.
A Cristandade não tentou abolir a desigualdade entre o trabalho de diferentes homens nem entre a sua propriedade. Razão pela qual, o seu esforço para suprimir a distribuição desigual dos bens de consumo não vingou. As vozes dos Padres da igreja proclamando o Comunismo não encontraram eco. Além disso, estas vozes, em breve, tornaram-se cada vez menos freqüentes e, finalmente, caíram no silêncio completo. Os Padres da Igreja cessaram de pregar a comunidade e a distribuição dos bens, porque o crescimento da comunidade cristã produziu mudanças fundamentais dentro da própria Igreja.
III
No princípio, quando o número de cristão era pequeno, não existia clero no sentido próprio da palavra. Os fiéis, que formavam uma comunidade religiosa independente, uniam-se em comum, em cada cidade. Elegiam um membro responsável para dirigir o serviço de Deus e realizar as cerimônias religiosas. Todo cristão podia tornar-se bispo ou prelado estas funções eram coletivas, sujeitas a revogação, honorárias, e não comunicavam poder além do que a comunidade lhes conferia de livre vontade. [9] À medida que o número de fiéis crescia e as comunidades se tornavam mais numerosas e mais ricas, a gerência dos negócios da comunidade e o desempenho das tarefas tornou-se uma ocupação que exigia muito tempo e uma aplicação total. Como os que exerciam este ofício não podiam executar as suas tarefas e simultaneamente os seus empregos privados, surgiu o costume de eleger entre os membros da comunidade um eclesiástico a quem eram exclusivamente confiadas estas funções. Portanto estes funcionários da comunidade tinham de ser pagos pela sua devoção exclusiva às funções dela. Assim se formou dentro da Igreja uma nova ordem de funcionários da Igreja, que se separou do corpo principal dos fiéis, o clero. Paralelamente à desigualdade entre ricos e pobres, aí apareceu uma outra desigualdade, entre o clero e o povo. Os eclesiásticos, no princípio eleitos entre iguais com vistas a exercerem uma função temporal, em breve se guindaram a uma espécie de casta que governava o povo.
Quanto mais as comunidades cristãs se tornavam numerosas nas cidades do grande Império Romano, tanto mais os cristãos, perseguidos pelo Governo, sentiam a necessidade de se unirem para ganhar força. As comunidades, espalhadas por todo o território do Império, organizaram-se portanto numa única Igreja. Esta unificação foi já uma unificação do clero e não do povo. Desde o séc. IV, os eclesiásticos das comunidades encontravam-se nos concílios. O primeiro concílio realizou-se me Nicéia, em 325. desta forma se formou o clero, numa ordem separada do povo. Os bispos das comunidades mais ricas e poderosas tomavam a presidência dos concílios. É por isso que o bispo de Roma em breve se colocou a si próprio à cabeça de toda a Cristandade e se tornou o Papa. Assim um abismo separava o clero, organizado em hierarquia, do povo.
Ao mesmo tempo, as relações econômicas entre o povo e o clero sofreram uma gande mudança. Antes da formação desta ordem, tudo que os membros ricos da Igreja ofereciam para propriedade comum pertencia aos pobres. Depois, uma grande parte dos fundos era gasta em pagar ao clero e em administrar a Igreja.
Quando, no séc. IV, o Cristianismo foi protegido pelo governo, e foi reconhecido em Roma como sendo a religião dominante, as perseguições dos cristãos terminaram e o culto deixou de ser exercido nas catacumbas ou em modestos compartimentos e passou para igrejas que começaram a ser construídas duma forma cada vez mais magnificente. Estas despesas reduziram assim os fundos destinados aos pobres. Já no século V, os rendimentos da Igreja eram divididos em quatro partes: a primeira para o bispo, a segunda para o clero menor, a terceira para manutenção da Igreja e era apenas a quarta parte que era distribuída para os necessitados. A população cristã pobre recebia portanto uma soma igual à que o Bispo recebia só para si próprio. Com o andar dos tempos foi-se perdendo o hábito de dar aos pobres a importância a eles destinada previamente. Sobretudo, quando o alto clero ganhou importância, os fiéis deixaram de ter o domínio sobre a propriedade da Igreja. Os bispos davam aos pobres a seu bel-prazer. O povo recebia esmolas do seu próprio clero. E não só. No princípio da cristandade, os fiéis faziam ofertas voluntárias para o tesouro comum. Logo que a religião cristã se tornou uma religião de Estado, o clero exigia que as ofertas fossem trazidas tanto pelos pobres como pelos ricos. Desde o século VI o clero impôs uma taxa especial, o dízimo (a décima parte das colheitas), que tinha de ser paga à Igreja. Esta taxa esmagava o povo como um pesado fardo; durante a Idade Média, tornou-se um verdadeiro flagelo para os camponeses oprimidos pela servidão. O dízimo era imposto sobre qualquer porção de terra, sobre qualquer propriedade. Mas foi sempre o servo quem pagou com seu trabalho. Assim os pobres não só perderam o apoio e ajuda da Igreja, mas viram os padres aliarem-se com os seus outros exploradores: príncipes, nobres, agiotas. Na Idade Média, enquanto a população trabalhadora se afundava em pobreza através da escravidão, a Igreja tornava-se cada vez mais rica. Além dos dízimos e de outras taxas, a Igreja beneficiava-se, neste período , de grandes doações, legados feitos por ricos libertinos de ambos os sexos que desejavam compensar, no último momento, a sua vida de pecado. Deram e voltaram a dar à Igreja dinheiro, casas, aldeias inteiras com os seus servos e algumas vezes rendas de terra ou direitos consuetudinários de trabalho.
Deste modo a Igreja adquiriu uma enorme riqueza. Ao mesmo tempo o clero deixou de o ser, para passar a ser o "administrador" da riqueza que a Igreja tinha recebido. Foi abertamente declarado, no século XII, ao formular-se uma lei que se diz vir da Sagrada Escritura, que a riqueza da Igreja pertence não aos fiéis, mas é propriedade individual do clero e do seu chefe, para o Papa, sobretudo. As posições eclesiásticas, portanto, ofereciam as melhores oportunidades para obter grandes rendimentos. Cada eclesiástico dispunha da propriedade da Igreja como se fosse sua e largamente a doava aos seus parentes, filhos e netos. Por este meio os bens da Igreja foram pilhados e desapareceram nas mãos dos familiares do clero. Por esta razão, os Papas declararam-se como proprietários soberanos das fortunas da Igreja e ordenaram o celibato do clero para o manterem intacto e impedir que seu patrimônio fosse disperso. O celibato foi decretado no século XIII, devido à posição do clero. Ainda para impedir a dispersão da riqueza da Igreja, em 1927 o papa Bonifácio VIII proibiu aos eclesiásticos de fazer oferta dos seus rendimentos aos leigos, sem permissão do Papa. Assim a Igreja acumulou enorme riqueza especialmente em terras lavradias e o clero de todos os países cristãos tornou-se o mais importante proprietário de terras. Possuía algumas vezes um terço ou mais do que um terço de todas as terras do país!
Os camponeses pagavam não só os impostos de trabalho mais o dízimo igualmente, e não só nas terras dos príncipes e dos nobres mas também em enormes áreas onde trabalhavam diretamente para bispos, párocos e conventos. Entre todos os poderosos senhores dos tempos feudais, a Igreja aparecia como maior de todos os exploradores. Na França, por exemplo, no fim do século XVIII, antes da Grande Revolução, o clero possuía a 5ª parte de todo o território do país com um rendimento anual de cerca de 100 milhões de francos. Os dízimos pagos pelos proprietários subiam a 23 milhões. Esta soma ia engordar 2.800 prelados e bispos, 5.600 superiores e priores, 60.000 párocos e curas e 24.000 monges e 36.000 freiras que enchiam os conventos. Este exército de padres estava livre de impostos e de obrigações de serviço militar. Nos tempos de calamidade – guerra, más colheitas, epidemias – a Igreja pagava ao tesouro de Estado uma taxa "voluntária" que nunca exercida 16 milhões de francos.
O clero, assim privilegiado, constituía, com a nobreza, uma classe dominante vivendo à custa de sangue e do suor dos servos. Os altos postos na Igreja e os que pagavam melhor eram distribuídos somente aos nobres e permaneciam nas mãos da nobreza. Conseqüentemente no período de escravidão, o clero foi aliado da nobreza dando-lhe apoio e ajuda para oprimir o povo a quem nada oferecia senão sermões, de acordo com os quais o povo devia permanecer humilde e resignar-se com a sua sorte. Quando o proletariado do campo e da cidade se levantava contra a opressão e escravatura, encontrava no clero um opositor feroz. É também verdade que mesmo dentro da Igreja havia duas cl;asses: o alto clero que absorvia toda a riqueza, e a grande massa dos curas rurais cujos modestos recursos não iam além de 500 a 2.000 francos anuais. Portanto esta classe revoltava-se contra o clero superior e, em 1789, durante a Grande Revolução, juntou-se ao povo para combater contra o poder da nobreza eclesiástica e laica. Assim foram as relações entre a Igreja e o povo modificadas com o andar dos tempos. A Cristandade começou como uma mensagem de consolação aos deserdados e pobres. Trazia uma doutrina que combatia a desigualdade social e o antagonismo entre ricos e pobres; ensinou a comunidade de riquezas. Em breve este templo de igualdade e fraternidade tornou-se uma nova fonte de antagonismos sociais. Tendo abandonado a luta contra a propriedade individual que tinha sido feita pelos primeiros apóstolos, o clero juntou ele próprio riquezas, aliou-se coma classe dominante que vivia a explorara o trabalho da classe trabalhadora. Nos tempos feudais a Igreja pertencia à nobreza, à classe dominante, e defendia ferozmente o poder desta contra a revolução. No fim do século XVIII e princípios do século XIX, o povo da Europa Central varreu a escravatura e os privilégios da nobreza. Nesta altura, a Igreja aliou-se outra vez às classes dominantes – à burguesia industrial e comercial. Hoje, a situação mudou e o clero já não possui grandes estados, mas possui capital que tenta tornar produtivo pela exploração do povo através do comércio e indústria, como fazem os capitalistas.
A Igreja Católica na Áustria possuía, de acordo com as suas próprias estatísticas, um capital de mais de 813 milhões de coroas (10), das quais 300 milhões eram em terras lavradias e em propriedades, 387 milhões em obrigações e além disso emprestou a juros total de 70 milhões aos donos de fábricas e aos homens de negócios. Eis como a Igreja, adaptando-se aos tempos modernos, se mudou para uma forma capitalista industrial e comercial a partir de um domínio feudal. Como outrora, ela continua a colaborar com a classe que se enriquece à custa do proletariado rural.
Esta mudança é ainda mais espantosa na organização dos conventos. Em certos países, tais como a Alemanha e a Rússia, os mosteiros foram suprimidos há muito tempo. Mas onde ainda existem, na França, Itália e Espanha, tudo evidencia o papel enorme desempenhado pela Igreja no regime capitalista.
Na Idade Média, os conventos eram o refúgio do povo. Era aí que procuravam refugiar-se para se livrar da severidade dos senhores e príncipes. Era aí que encontravam alimento e proteção em caso de pobreza extrema. Os conventos não recusavam pão e sustento aos esfomeados. Não esqueçamos, especialmente, que a Idade Média nada sabia de comércio como é normal nos nossos dias. Toda propriedade, todo o convento produzia em abundância para si próprio, graças ao trabalho dos servos e dos artífices. Muitas vezes as provisões em reserva não tinha saída. Quando produziam mais cereal, mais legumes, mais madeira do que era necessário para o consumo dos monges, o excedente não tinha valor. Não havia comprador para ele e nem todos os produtores se podiam preservar. Nestas condições, os conventos cuidavam gratuitamente dos seus pobres, em todo o caso oferecendo-lhe apenas uma pequena parte do que tinha sido extraído aos seus servos. (Este era o costume normal neste período e quase todas as propriedades pertencente à nobreza procediam do mesmo modo). De fato, os conventos beneficiavam consideravelmente desta benevolência; tendo fama de abrir as suas portas aos pobres, recebiam grandes dádivas e legados dos ricos e poderosos. Com o aparecimento do capitalismo e da produção para troca, todos os objetos adquiriram um preço e tornaram-se negociáveis. Nesta altura, os conventos, as casas dos senhores e dos eclesiásticos cessaram os seus benefícios. O povo não encontrou aí mais refúgio. Eis uma razão, entre outras, porque no princípio do capitalismo, no século XVIII, quando os trabalhadores não estavam ainda organizados para defender os seus interesses, apareceu uma pobreza não aterrorizadora que parecia que a humanidade tinha regressado aos dias da decadência do Império Romano. Mas enquanto a Igreja Católica, nos primeiros tempos, se esforçou por auxiliar o proletariado romano pregando o comunismo, a igualdade e a fraternidade, no período capitalista agiu de um modo completamente diferente. Procurou sobretudo beneficiar com a pobreza do povo: pôs a mão-de-obra barata a trabalhar. Os conventos tornaram-se literalmente infernos de exploração capitalista, tanto piores quanto tinham ao seu serviço mulheres e crianças. A causa judicial contra o convento Bom Pastora, em França, em 1903, foi um exemplo retumbante destes abusos. Rapariguinhas de 12, 10 e 9 anos eram compelidas a trabalhar em condições abomináveis, sem descanso, arruinando os olhos e a saúde e eram mal alimentadas e sujeitas à disciplina de prisão.
Nesta altura, os conventos estão quase abolidos na França e a Igreja perde a oportunidade de exploração capitalista direta. O dízimo, o açoite dos servos, tinha sido igualmente abolidos há muito tempo. Isto não impede o clero de extorquir dinheiro à classe trabalhadora por outros métodos, e especialmente através de missas, casamentos, funerais e batismos. E os governos que sustentam o clero obrigam o povo a pagar o seu tributo. Mais, em todos os países exxeto nos USA e na Suíça, onde a religião é um assunto pessoal, a Igreja recebe do Estado enormes somas que obviamente provêm do duro trabalho do povo. Por exemplo. Na França os gastos com o clero sobem 40 milhões de francos por ano.
Para resumir, é o trabalho de milhões de explorados que assegura a existência da Igreja, do governo e da classe capitalista. As estatísticas relativas ao rendimento da Igreja na Áustria dão a idéia da considerável riqueza da Igreja, que foi outrora refúgio dos pobres. Há cinco anos (isto é, 19000) as suas receitas anuais ascendiam 35 milhões. Assim, no decurso de um só ano, "punha de lado" 25 milhões à custa do suor e sangue derramados pelos trabalhadores. Aqui estão alguns detalhes desse orçamento:
O Arcebispo de Viena, com rendimento anual de 300.000 coroas, e com despesas não superiores a metade dessa quantia, fazia 150.000 coroas de "economias" por ano; o capital fixo do Arcebispado era de cerca de 7 milhões de coroas. O Arcebispo de Praga goza de um rendimento superior a meio milhão e tem cerca de 300.000 de despesas; o seu capital atinge quase 11 milhões de coroas. O Arcebispado do Olomouce (Olmutz) tem mais meio milhão de rendimentos e cerca de 400.000 de despesa; a sua fortuna excede 14 milhões. O clero subordinado, que muitas vezes alega pobreza, não explora menos a população. Os rendimentos anuais dos párocos da Áustria atingem 35 milhões de coroas, as despesas apenas 21 milhões, com o que as "economias" dos párocos atingem anualmente 14 milhões. Finalmente, os conventos de há cinco anos possuíam, deduzidas todas as despesas, uma receita líquida de 5 milhões por ano. Estas riquezas cresciam todos os anos, enquanto a pobreza dos trabalhadores explorados pelo capitalismo e pelo estado crescia de ano para ano.
No nosso país, e em toda a parte, o estado de coisas, é exatamente como na Áustria.
IV
Depois de termos revistos resumidamente a história da Igreja não podemos surpreender-nos que o clero apóie o governo czarista e os capitalistas contra os trabalhadores revolucionários que lutam por um futuro melhor. Os trabalhadores com consciência de classe, organizados no Partido Social Democrata, lutam por dar realidade à idéia da igualdade social e da fraternidade entre homens, objetivo que fora anteriormente o da Igreja Cristã.
Não é possível empreender a igualdade quer numa sociedade baseada na escravatura quer numa sociedade baseada na servidão: torna-se possível entende-la no nosso tempo, isto é, no regime do capitalismo industrial. O que os apóstolos cristãos não puderam conseguir com os seus ardentes discursos contra o egoísmo dos ricos, os proletários modernos, trabalhadores conscientes da sua posição de classe, podem principiar a realizar no futuro próximo, pela conquista do poder político em todos os países, apoderando-se das fábricas, da terra e de todos os meios de produção dos capitalistas para os tornar propriedade comum dos trabalhadores. O comunismo que os sociais democratas têm em vista não consiste na distribuição entre pobres, ricos e preguiçosos da riqueza produzida por escravos e servos, mas no trabalho comum honesto e unido e no gozo honesto dos frutos comuns desse trabalho. O socialismo não consiste em dádivas generosas feitas pelos ricos aos pobres, mas na abolição total de toda a diferença entre ricos e pobres, obrigando todos igualmente a trabalhar de acordo com a sua capacidade para se suprimir a exploração do homem pelo homem.
Com o propósito de estabelecer a ordem socialista, os trabalhadores organizaram-se no Partido Social Democrata dos Trabalhadores que se propõe a este fim. Eis porque a Social Democracia e o movimento dos trabalhadores enfrentam o ódio feroz das classes proprietárias que vivem à custa dos trabalhadores.
As enormes riquezas acumuladas pela Igreja, sem qualquer esforço da sua parte, vêm da exploração e da pobreza do povo trabalhador. A riqueza dos arcebispos e bispos, dos conventos e paróquias, a riqueza dos donos das fábricas, e dos comerciantes e dos proprietários de terras, é comprada ao preço de esforços desumanos dos trabalhadores da cidade e do campo. Qual é a única origem das dádivas e dos legados que os ricos senhores fazem à Igreja? Obviamente que não é o trabalho das suas mãos e o suor dos seus rostos, mas a exploração dos trabalhadores que trabalham sem descanso para eles; servos ontem, assalariados hoje. Além disso, os subsídios que os governos hoje dão ao clero vêm do Tesouro Público, constituído na maior parte por impostos tirados às massas populares. o clero, não menos do que a classe capitalista, vive do povo, beneficia da degradação, da ignorância e da opressão das pessoas. O clero e os capitalistas parasitas odeiam a classe trabalhadora organizada, consciente dos seus direitos, que luta pela conquista das suas liberdades. Pois a abolição da desordem capitalista e o estabelecimento da igualdade entre os homens desferiram um golpe mortal, especialmente no clero que existe só graças à exploração e à pobreza. Mas sobretudo, o socialismo ajuda a assegurar à humanidade uma felicidade honesta e sólida cá em baixo, a dar ao povo a maior educação possível e o primeiro lugar na sociedade. É precisamente esta felicidade aqui na terra que os servidores da Igreja temem como uma praga.
Os capitalistas moldaram a golpes de martelo os corpos do povo, em cadeias de pobreza e escravatura. Paralelamente a isto, o clero, ajudando os capitalistas e servindo os seus próprios interesses, aprisiona o espírito do povo, mantém-o em ignorância crassa, pois compreende bem que essa educação poria fim ao seu poder. O clero, falsificando o primitivo ensinamento do Cristianismo que tinha por objetivo a felicidade terrena dos humildes, tenta hoje persuadir trabalhadores de que o sofrimento e a degradação que suportam não provêm duma estrutura social defeituosa, mas sim do céu, da vontade da "Providência". Assim a Igreja mata nos trabalhadores a força, a esperança e o desejo dum futuro melhor, mata a fé em si próprios e o respeito por si mesmos. Os padres de hoje, com seus ensinamentos falsos e venenosos, mantêm continuamente a ignorância e a degradação do povo. Eis algumas provas irrefutáveis.
Nos países onde o clero católico goza de grande poder sobre a mentalidade do povo, na Espanha e na Itália por exemplo, as pessoas são mantidas em completa ignorância. A embriaguez e o crime florescem aí. Por exemplo, comparemos as duas províncias da Alemanha, Baviera e Saxônia. A Baviera é um estado agrícola onde a população vive predominantemente sob influência do clero católico. A Saxônia é um estado industrializado onde os sociais democratas exercem um grande papel na vida dos trabalhadores. Vencem as eleições parlamentares em quase todas as circunscrições, razão pela qual a burguesia mostra o seu ódio contra esta Província social democrata "vermelha". E o que é que se vê? As estatísticas oficiais mostram que o número de crimes econômicos cometidos na ultracatólica Baviera é relativamente muito mais elevado do que na "Vermelha Saxônia". Vemos que em 1898, em cada 100.000 habitantes havia:
| Na Baviera | Na Saxônia | |
|---|---|---|
| Roubo com violência |
204
|
185
|
| Assaltos e ataques |
296
|
72
|
| Perjúrio |
4
|
1
|
Encontramos uma situação completamente similar ao comparar o recorde de crimes em Possen dominada pelos padres como o de Berlim onde a influência da Social Democrata é maior. no curso do ano vemos 100.000 habitantes em Possen, 232 casos de ataques e ferimentos e em Berlim 172 apenas.
Na cidade papal, Roma, durante um único mês do ano de 1869 (o penúltimo ano do poder temporal dos papas), foram condenadas: 279 pessoas por assassínio, 728 por assaltos, 297 por roubo e 21 por fogo posto. Estes são os resultados do domínio clerial sobre o povo assoberbado pela pobreza .
Isto não quer dizer que o clero incite diretamente o povo ao crime. Bem ao contrário, nos seus sermões os padres condenam com freqüência o roubo, os assaltos e a embriagues mas os homens não roubam, não assaltam nem se embebedam porque gostem de o fazer ou de perseverar nesses hábitos. É a pobreza e a ignorância que são causas disso. Portanto aquele que mantém viva a ignorância e a pobreza do povo, aquele que mata sua energia e a sua vontade de sair desta situação, aquele que põe toda a espécie de obstáculos no caminho dos que tentam educar o proletariado, esse é responsável por estes crimes exatamente como se fosse um cúmplice.
A situação nas áreas mineiras da católica Bélgica era semelhante até há pouco tempo. Os sociais democratas foram lá. O seu apelo vigoroso aos infelizes e degradados trabalhadores ecoou através do país: "Trabalhador levanta-te a ti mesmo! Não roubes, não te embebedes, não baixes a cabeça em desespero! Lê, ensina-te a ti mesmo! Junta-te aos teus irmãos de classe na organização, luta contra os exploradores que te maltratam! Emergirás da pobreza, tornar-te-ás um homem!"
Assim, os Sociais Democratas elevam o povo e fortalecem os que perdem a esperança, reúne os fracos numa poderosa organização. Abrem os olhos dos ignorantes e mostram o caminho da igualdade, da liberdade, e do amor aos nossos vizinhos.
Por outro, os servos da Igreja trazem ao povo apenas palavras de humilhação e desencorajamento. E, se Cristo aparecesse hoje na terra, atacaria com certeza os padres, os bispos e arcebispos que defendem os ricos e vivem explorando os desafortunados, como outrora atacou os comerciantes que expulsou do templo para que a presença ignóbil deles não maculasse a Casa de Deus.
Eis porque rebentou uma luta desesperada entre o clero, suporte da opressão, e os sociais democratas anunciadores da libertação. Nesta luta não há comparação com a da noite escura e a do sol nascente? Porque os padres não são capazes de combater o socialismo com a inteligência e a verdade, têm de recorrer à violência e à maldade. As suas falas de Judas caluniam os que levantam a consciência de classe. Por meio de mentiras e calúnias tentam manchar todos os que oferecem as suas vidas pela causa dos trabalhadores. Estes servidores e adoradores do Bezerro de Ouro suportam a aplaudem os crimes do governo czarista e defendem o trono do último déspota que oprime o povo como o Nero.
Mas é em vão que os indignais, que desesperais que degenerais de servidores da Cristandade e vos tornais servidores de Nero. É em vão que ajudais os nossos assassinos, em vão protegeis os exploradores do proletariado sob o sinal da cruz. As vossas crueldades e calúnias nos tempos antigos não puderam impedir a vitória da idéia cristã, a idéia que sacrificaste ao Bezerro de Ouro; hoje os vossos esforços não levantarão nenhum obstáculo à vinda do Socialismo. Hoje sois vós, com as vossas mentiras e ensinamentos, que sois pagãos, e somos nós quem traz aos pobres, aos explorados, as novas da fraternidade e da igualdade. somos nós quem está a marchar para a conquista do mundo como fez aquele que outrora proclamou que é mais fácil a um camelo passar pelo fundo de uma agulha do que a um rico entrar no reino do céu.
V
Algumas palavras finais
O clero tem ao seu dispor dois meios para combater a Social Democracia. Onde o movimento da classe trabalhadora começa a ser reconhecido, como é o caso do nosso país (Polônia), onde as classes dominantes ainda têm esperança de a esmagar, o clero combate os socialistas com sermões ameaçadores, caluniando-os e condenando a "cobiça" dos trabalhadores. Mas nos países onde as liberdades políticas estão estabelecidas e onde o partido dos trabalhadores é poderoso, como por exemplo na Alemanha, França e Holanda, aí o clero procura outros meios. Esconde o seu fim real e já não encara os trabalhadores como um inimigo declarado, mas como um falso amigo. Deste modo vereis os padres a organizar os trabalhadores e a fundar Federações Industriais Cristãs. Desta maneira tentam apanhar peixe na sua rede, atrair os trabalhadores a esta ratoeira de falsas federações onde ensinam a humildade, ao contrário das organizações da Social Democracia que têm em vista lutar e defender-se contra a opressão.
Quando o governo czarista finalmente cair sob os golpes do proletariado revolucionário na Polônia e da Rússia, e quando a liberdade política existir no nosso país então veremos o mesmo Arcebispo Popiel e os mesmos eclesiásticos que hoje trovejam contra os militantes, começarem repentinamente a organizar os trabalhadores em associações "Cristãs" e "Nacionais" para conduzi-los. Já estamos no princípio desta atividade subterrânea da "Democracia Nacional" que assegura a colaboração futura com os padres e hoje os ajuda a difamar os sociais democratas. Os trabalhadores devem, portanto, ser avisados do perigo para que não se deixe apanhar na vitória próxima da revolução, pelas palavras doces dos que hoje, do alto dos seus púlpitos, ousam defender o governo czarista, que mata os trabalhadores, e o aparelho repressivo do capital, que é a causa principal da pobreza do proletariado. Para os defender contra o antagonismo do clero no tempo presente, durante a revolução e contra a sua falsa amizade de amanhã, depois da revolução, é necessário aos trabalhadores organizarem-se no Partido Social Democrata.
E aqui está a resposta a todos os ataques do clero: A Social Democracia de modo algum combate os sentimentos religiosos. Ao contrário, procura completa liberdade de consciência para todo o indivíduo e a mais ampla tolerância possível para qualquer fé e qualquer opinião. Mas desde o momento que os padres usam púlpito como um meio de luta contra as classes trabalhadoras, os trabalhadores devem lutar contra os inimigos dos seus direitos e da sua libertação. Porque o que defende os exploradores e o que ajuda a prolongar este regime presente de miséria, esse é que é o inimigo mortal do proletariado, quer esteja de batina ou de uniforme de polícia
terça-feira, 14 de janeiro de 2014
Derrubemos o Imperialismo -Kim Il Sung
Camaradas,
Reunimo-nos hoje, aqui, com a total determinação de nos lançar à sagrada luta revolucionária pela independência da Coreia.
Até então, tivemos vários estudos e discussões sobre o caminho para a independência da Coreia e os métodos de luta. No curso disto, encontramos o caminho que devemos seguir e qual método empregar na luta. Para libertar asmassas populares da escravidão colonial, comodeclaramos solenemente em nossa revolução, devemos lutar contra o imperialismo japonês até o fim. O imperialismo invade e saqueia outros países através de todos os meios possíveis. Nos dias de hoje, o imperialismo viola os direitos de autodeterminação das nações colonizadas, oprime-as e as explora brutalmente. O imperialismo japonês reforça a mais bárbara tirania colonial na Coreia. Desde a ocupação do mesmo em nossa linda terra, os imperialistas japoneses passaram por cima dos direitos do povo à autodeterminação e mantiveram nossos vinte milhões de compatriotas sob a pior opressão colonial, sem precedentes, sujeitando-os a um terrível saque.
Eles levantaram instituições tirânicas, gendarmes, postos policiais, e seguem consolidando-os. O número de postos de gendarmes e policiais na Coreia é calculado em milhares. Eles estão levantando uma enorme máquina burocrática de opressão para reprimir os direitos elementares do povo à liberdade de expressão, de imprensa, assembleia e demonstração. Estão detendo, prendendo e torturando pessoas inocentes.
Recentemente, mandaram para o tribunal um grande número de estudantes e jovens envolvidos no Movimento Independentista Dez de Junho(2) para puni-los de forma severa. Eles derrubam o povo coreano brutalmente não só em nosso território como também no exterior. As atrocidades de larga escala em Jiandao, em 1920(3), e o massacre de coreanos na época do terremoto de Kanto(4) em 1923 são apenas dois exemplos.
Consequentemente, não passa um dia sequer sem que o sangue dos coreanos seja derramado em todos os lugares onde os imperialistas japoneses põem seus sujos pés.
Economicamente, eles também sujeitam nosso povo à mais bárbara exploração. Tratam nossos operários como animais nas fábricas e nas minas, pagando a eles salários de fome. Estão despojando a Coreia de seus recursos minerais e riquezas. Apossaram-se de centenas de milhares de hectares de terra fértil nas planícies das três províncias do sul e em outra parte da Coreia, saqueando uma colossal quantidade de grãos.
Como resultado disso, nosso povo mal consegue vestimentas e é reduzido a viver de raízes de plantas e cascas de árvores. Muitos saem para locais no exterior para conseguirem sustento.
A Coreia está agora reduzida a um objeto de ilimitada exploração e pilhagem pelos imperialistas japoneses, e se tornou uma terra negra de fome e pobreza sem precedentes. Devido à ocupação pelos agressores imperialistas japoneses, nossa Coreia, que é celebrada por sua história contínua de cinco mil anos, perdeu seu brilho e o povo sofre grandemente. Tal situação mostra claramenteo quão miserável é uma nação que é privada de sua soberania pelos imperialistas.
Centenas de milhões de pessoas de dezenas de colônias dos Estados Unidos, Grã-Bretanha, França e outras potências imperialistas sofrem da mesma miséria na qual se encontra nosso povo.
Esse fato prova eloquentemente que os japoneses e todos os outros imperialistas são causa raiz de todos os sofrimentos e dificuldades sofridos pelas massas proletárias e povos oprimidos das colônias, assim como seus inimigos mortais. O imperialismo é um vampiro que vive do suor e do sanguedos povos colonizados, os imperialistas engordam em cima das colônias e colocam-nas como tábua de salvação. Contradições inconciliáveis são as que existem entre os imperialistas e os povos das colônias, e essas contradições estão aguçando com o passar do tempo. Por conta do caráter antagônico de tais contradições, elas não podem ser resolvidas através de “compromissos” e só deixaram de existir quando o imperialismo for derrubado.
Enquanto o imperialismo não for destruído, é impossível falar num livre desenvolvimento das nações e na felicidade das massas proletárias oprimidas.
Devemos destruir os agressores imperialistas japoneses e conquistar a independência da Coreia para assegurar a liberdade e a felicidade para nosso povo. Futuramente, devemos cumprir a causa sagrada de destruir o imperialismo no mundo inteiro para que as massas proletárias do mundo possam viver uma vida livre e feliz.
Como, então, devemos lutar contra o imperialismo? Não devemos lutar da maneira como os ativistas nacionalistas fazem.
Em primeiro lugar, seus princípios e suas políticas possuem sérias fraquezas.
Como vimos na área de Huadian, eles pregam “restauração” da soberania nacional. Claro, tal asserção possui um aspecto positivo por se oporem aos agressores estrangeiros. Mas seu alvo é, em essência, restaurar a “monarquia”, que representa os interesses de um pequeno numero de pessoas que compõe a classe proprietária.
Os nacionalistas estão tentando levar a cabo seus slogans não convincentes através da pequena força de uma pequena elite, não através de um movimento de massas envolvendo amplos setores da população. Com efeito, seus slogans pela “restauração” da soberania nacional e seus métodos pequenos são ineficientes para organizar e mobilizar as massas trabalhadoras e, de acordo, são mal sucedidas na luta contra o imperialismo.
Por conta de sua adoração às grandes potências, os ativistas nacionalistas tentam conquistar a independência com a ajuda de outros países, não através das próprias forças. Durante o Movimento Primeiro de Março(5), os nacionalistas, que posavam de “representantes” da nação, eram fascinados pela ilusão da “doutrina da autodeterminação nacional” defendida pelo presidente norte-americano Woodrow Wilson e pregavam a não-violência às massas, fazendo tolas tentativas de conquistar a “independência” através de “petições” e se apoiando em forças estrangeiras, sem sucesso. Apesar dessa enorme lição, os nacionalistas, ainda procuram a ajuda de países maiores, ao invés de tentarem conquistar a independência através da mobilização de nosso povo.
Como acontece, os princípios dos ativistas nacionalistas, suas políticas e atitudes nada tem em comum com os interesses do proletariado que ocupa a imensa maioria da população.
Os ativistas nacionalistas são desunidos e se lançam em rixas fracionistas.
Como nossa experiência em Huadian e em outras províncias da parte sul da Manchuria mostra, todos eles falam em luta anti-japonesa e em independência nacional, mas não estão unidos. Eles atuam em grupos separados, e até atacam uns aos outros. Estão até atuando aqui para levantar fundos de guerra e por uma área maior sob sua influência.
Se atuarmos como os ativistas nacionalistas atuam agora, não poderemos nem derrotar os imperialistas japoneses nem conquistar a independência nacional.
A experiência histórica e as lições da luta anti-japonesa mostram-nos que devemos seguir um novo caminho da luta que é totalmente diferente do caminho dos ativistas nacionalistas.
Devemos seguir o caminho Marxista, que leva à libertação das massas operárias oprimidas do jugo da tirania imperialista japonesa e as provem com a genuína liberdade e felicidade. O marxismo é a teoria mais progressista, revolucionária e científica da história. Sua verdade e seu poder foram provados claramente através da Revolução Socialista de Outubro na Rússia. Sob abandeira Marxista, o proletariado russo combateu, derrubou a monarquia czarista e estabeleceu pela primeira vez no mundo um sistema social em que opovo oprimido vive uma vida feliz. Devemos seguir a bandeira invencível do Marxismo, cuja verdade e poder foi confirmada pela prática.
Entretanto, não podemos lutar no mesmo caminho como alguns autodenominados defensores do marxismo lutam atualmente.
Algumas pessoas que dizem estar engajadas no movimento comunistas tentam conquistar as pessoas para seus lados, cada uma delas posando como uma “elite” e atacando umas às outras. O comportamento de Kim Chan(6) em suavisita à Escola Uisuk Hwasong(7) mostra esse fato. Tais ações dividem as forças anti-japonesas.
Em vista da lição histórica da luta anti-japonesa, devemos destruir o imperialismo japonês e conquistar a genuína independência da Coreia por nossos próprios esforços, através de um movimento de massas, não através dos esforços de algumas poucas pessoas de alto escalão, e se apoiando nas forças de nosso próprio povo, não em forças estrangeiras.
Se o forte e corajoso povo coreano, que é orgulhoso de sua longa história e brilhante cultura, lutar com esforços unidos, poderá certamente derrotar os imperialistas japoneses e conquistar a independência da Coreia. Se o encorajarmos a lutar com unidade, devemos munir as amplas massas com ideias patrióticas anti-japonesas e com a ideia progressista do Marxismo para despertá-las para a consciência nacional e classista. Para fazer isso, devemos empregar várias formas e métodos que estejam de acordo com suas características e nível de preparo – devemos levar a vigilância do inimigo em consideração. Enquanto isso, devemos construir vários tipos de organizações revolucionárias ilegais, e gradualmente mobilizar as massas de todos os campos em torno delas.
Para que destruamos o imperialismo japonês e conquistemos a independênciada Coreia através da organização das massas sob a bandeira do Marxismo, devemos formar primeiramente a organização revolucionária de nossos jovens comunistas. É sugerível que se nomeie essa organização de União para Derrotar o Imperialismo de acordo com sua missão, e abreviar seu nome para a sigla UDI.
Pelo fato de a UDI assumir, em nome e em fato, a missão de derrubar o imperialismo, seu programa deve por como tarefa imediata a destruição do imperialismo japonês, inimigo jurado do povo coreano, e a conquista da independência e da libertação da Coreia, e ter como tarefa final a construçãodo socialismo e do comunismo na Coreia, derrubando no futuro todas as formas de imperialismo e construindo o comunismo pelo mundo.
Para levar a cabo o programa da UDI, devemos, antes de tudo, fortalecer a UDI orgânica e ideologicamente.
Os membros da UDI devem estudar o Marxismo profundamente e, em tal base, se unir com uma só mente e vontade. Por maior que seja o programa que a organização revolucionária defenda, ela não poderá cumprir sua missão enquanto seus membros não se unirem em ideologia e propósito. Em nossa organização, com efeito, devemos lutar contra as ações fracionistas e tendências evidenciadas entre os ativistas nacionalistas de alguns autodenominados ativistas comunistas. Se tais tendências aparecem, devemos rechaça-las completamente.
Enquanto isso, devemos expandir e fortalecer a UDI com um novo conjunto de membros de jovens confiáveis que estão determinados a devotar seus corpos e mentes para lutar contra o imperialismo japonês. Os membros da UDI devem observar estritamente as regras da vida orgânica em suas atividades. Devem participar da vida orgânica com vontade, estabelecendo uma atmosfera revolucionária, obedecendo absolutamente todas as instruções da organização e mantendo os segredos da organização mesmo que isso signifique sacrificar a própria vida.
Camaradas,
A formação da UDI é uma declaração da batalha decisiva para destruir o imperialismo japonês, e uma confrontação contra o imperialismo a nível mundial.
Nós, a juventude de vanguarda, devemos tomar a liderança dessa valiosa luta. Esta nobre missão recai sobre nós, que devem modificar o destino do país e da nação. Nós, jovens comunistas de uma nova geração, tendo em mente nossa grande responsabilidade de salvar o país e a nação, devemos cumprir nosso dever e dar uma liderança correta à luta de massas anti-japonesa demonstrando sabedoria, coragem e dedicação sem limites.
Nosso caminho da luta não será fácil, muitos obstáculo e dificuldades, parecendo impossível de serem superados, aparecerão em nosso caminho.
Nós, jovens homens e mulheres da UDI, devemos superar todos os obstáculos e provas com forte vontade e espírito combativo revolucionário, derrubar o imperialismo japonês e conquistar a independência da Coreia.
Camaradas,
Lutemos corajosamente para enterrar o imperialismo a nível mundial.
O Quê Deve Ser um Jovem Comunista (fragmento) - Ernesto 'Che' Guevara
Quero formular agora, companheiros, qual é a minha opiniom, a visom de um dirigente nacional das ORI, do que é que deve ser um jovem comunista, a ver se estivermos de acordo todos.
Eu acho que o primeiro que deve caracterizar um jovem comunista é a honra que sente por ser um jovem comunista. Essa honra que o leva a mostrar perante todo o mundo a sua condiçom de jovem comunista, que nom o vira para a clandestinidade, que nom o reduz a fórmulas, mas que o exprime a cada momento, que lhe sai do espírito, que tem interesse em demonstrá-lo porque é o seu símbolo de orgulho.
Junto disso, um grande sentido do dever para a sociedade que estamos a construir, com os nossos semelhantes como seres humanos e com todos os homens do mundo. Isso é algo que deve caracterizar o jovem comunista. Ao pé disso, umha grande sensibilidade ante todos os problemas, grande sensibilidade face à injustiça. Espírito inconforme cada vez que surge algo que está mal, tenha-o dito quem o dixer. Pôr em questom todo o que nom se perceber. Discutir e pedir aclaraçom do que nom estiver claro. Declarar a guerra ao formalismo, a todos os tipos de formalismo. Estar sempre aberto para receber as novas experiências, para conformar a grande experiência da humanidade, que leva muitos anos a avançar pola senda do socialismo, às condiçons concretas do nosso país, às realidades que existem em Cuba. E pensar -todos e cada um- como irmos mudando a realidade, como irmos melhorando-a.
O jovem comunista deve tentar ser sempre o primeiro em tudo, luitar por ser o primeiro, e sentir-se incomodado quando em algo ocupa outro lugar. Luitar sempre por melhorar, por ser o primeiro. Claro que nom todos podem ser o primeiro, mas sim estar entre os primeiros, no grupo de vanguarda. Ser um exemplo vivo, ser o espelho onde podam olhar-se os homens e mulheres de idade mais avançada que perdêrom certo entusiasmo juvenil, que perdêrom a fé na vida e que ante o estímulo do exemplo reagem sempre bem. Eis outra tarefa dos jovens comunistas.
Junto disso, um grande espírito de sacrifício, um espírito de sacrifício nom apenas para as jornadas heróicas, mas para todo o momento. Sacrificar-se para ajudar o companheiro nas pequenas tarefas e que poda cumprir o seu trabalho, para que poda cumprir com o seu dever no colégio, no estudo, para que poda melhorar de qualquer maneira. Estar sempre atento a toda a massa humana que o rodeia.
Quer dizer: apresenta-se a todo jovem comunista a tarefa de ser essencialmente humano, ser tam humano que se aproxime ao melhor do humano, purificar o melhor do homem por meio do trabalho, do estudo, do exercício de solidariedade continuada com o povo e com todos os povos do mundo, desenvolver ao máximo a sensibilidade até se sentir angustiado quando um homem é assassinado em qualquer canto do mundo e para se sentir entusiasmado quando em algum canto do mundo se alça umha nova bandeira de liberdade.
O jovem comunista nom pode estar limitado polas fronteiras de um território, o jovem comunista deve praticar o internacionalismo proletário e senti-lo como cousa de seu. Lembrar-se, como devemos lembrar-nos nós, aspirantes a comunistas cá em Cuba, que somos um exemplo real e palpável para toda a nossa América, para outros países do mundo que luitam também noutros continentes pola sua liberdade, contra o colonialismo, contra o neocolonialismo, contra o imperialismo, contra todas as formas de opressom dos sistemas injustos. Lembrar sempre que somos um facho acesso, que somos o mesmo espelho que cada um de nós individualmente é para o povo de Cuba, e somos esse espelho para que se olhem nele os povos da América, os povos do mundo oprimido -que luitam pola sua liberdade. E devemos ser dignos desse exemplo. Em todo o momento e a toda a hora ser dignos desse exemplos.
Isso é o que nós julgamos que deve ser um jovem comunista. E se se nos dixesse que somos quase uns románticos, que somos uns idealistas inveterados, que estamos a pensar em cousas impossíveis, e que nom se pode atingir da massa de um povo que seja quase um arquétipo humano, nós temos de contestar, umha e mil vezes, que sim, que sim se pode, que estamos no certo, que todo o povo pode ir avançando, ir liquidando intransigentemente todos aqueles que ficarem atrás, que nom forem capazes de marcharem ao ritmo a que marcha a revoluçom cubana. Tem de ser assim, deve ser assim, e assim é que será, companheiros, será assim, porque vocês som jovens comunistas, criadores da sociedade perfeita, seres humanos destinados a viver num mundo novo de onde terá desaparecido de vez todo o caduco, todo o velho, todo o que representar a sociedade cujas bases acabam de ser destruídas.
Para atingirmos isso cumpre trabalhar todos os dias. Trabalhar no senso interno de aperfeiçoamento, de aumento dos conhecimentos de aumento da compreensom do mundo que nos rodeia. Inquirir e pesquisar e conhecer bem o porquê das cousas e colocar sempre os grandes problemas da Humanidade como problemas próprios.
Dessarte, num momento dado, num dia qualquer do anos que venhem -após passarmos muitos sacrifícios, sim, depois de termo-nos porventura visto muitas vezes à beira da destruiçom- após termos porventura visto como as nossas fábricas som destruídas e de tê-las reconstruído de novo, depois de assistirmos ao assassinato, à matança de muitos de nós e de reconstruirmos o que for destruído, ao fim de isso tudo, um dia qualquer, quase sem repararmos, teremos criado, junto dos outros povos do mundo, a sociedade comunista, o nosso ideal.
As Tarefas da Literatura na Sociedade Soviética Andrêi Zhdanov
Transparece claramente na resolução do Comitê Central que o erro mais grosseiro da revista «Zviezda» foi ter posto suas páginas à disposição de Zostchenko e Akhmatova para a publicação de suas «criações» literárias. Creio que não é necessário citar aqui a obra de Zostchenko «As aventuras de um macaco». Provavelmente todos vós a lestes e a conheceis melhor do que eu. Essa obra visa — tal é sua significação — apresentar os homens soviéticos como vagabundos e monstros, como pessoas estúpidas e primitivas. O trabalho dos homens soviéticos, seus esforços e seu heroísmo, suas altas qualidades sociais e morais, não interessam absolutamente a Zostchenko. Este tema está sempre ausente de suas obras. Pequeno burguês e vulgar escolheu ele como tema a análise dos aspectos mais baixos e mesquinhos da vida. Essa análise dos fatos insignificantes da vida não é fortuita. É familiar a todos os escritores burgueses, vulgares, aos quais também pertence Zostchenko. Sobre eles muito falou Gorki em sua época, deveis lembrar como no Congresso dos Escritores Soviéticos, realizado em 1934, Gorkiestigmatizou os «literatos», se assim posso dizer, que não enxergam além da fuligem da cozinha.
«As Aventuras de um Macaco» não sai do quadro habitual dos trabalhos de Zostchenko. Essa novela só chamou a atenção da crítica porque é o exemplo mais surpreendente de tudo quanto existe de negativo em sua obra literária. Sabe-se que quando voltou a Leningrado, depois de sua evacuação, Zostchenko escreveu vários trabalhos que se caracterizam por sua incapacidade em encontrar na vida soviética um único elemento positivo, um único tipo positivo. Como nas «Aventuras de um macaco», Zostchenko está habituado a zombar das massas soviéticas, das instituições, dos cidadãos soviéticos, disfarçando essa ironia sob uma máscara de brincadeira vazia e de espírito inútil.
Se lerdes mais atentamente e se meditardes sobre essa novela, «As Aventuras de um Macaco», vereis que Zostchenko atribuí ao macaco o papel de juiz supremo de nossas instituições sociais e fá-lo ministrar aos homens soviéticos uma espécie de curso de moral. O macaco é apresentado como um ser racional capaz de julgar a conduta dos homens. Zostchenko precisou apresentar uma imagem da vida dos homens soviéticos deliberadamente monstruosa, caricata e vulgar para pôr na boca do macaco uma frasezinha pérfida e anti-soviética, segundo a qual era melhor viver no Jardim Zoológico do que em liberdade e que era mais fácil respirar na jaula do que entre os homens soviéticos.
Poder-se-á cair mais baixo, moral e politicamente, e como puderam habitantes. de Leningrado admitir uma tal perfídia; uma tal sujeira em suas revistas?
Se a revista «Zviezda» oferece a seus leitores obras desse gênero, como deve ser precária a vigilância dos que a dirigem para nela publicar obras envenenadas com uma hostilidade bestial para com o regime soviético. Só a escória da literatura pode produzir obras semelhantes e só cegos e apolíticos podem publicá-las.
Diz-se que o conto de Zostchenko percorreu as ruas de Leningrado. Como deve estar enfraquecida a direção em Leningrado para que fatos semelhantes tenham podido ocorrer!
Zostchenko, com sua moral repugnante, soube introduzir-se numa grande revista de Leningrado e nela se instalar comodamente. Ora, a revista «Zviezda» é um órgão que deve educar nossa juventude. Mas uma revista que hospeda um escritor tão vulgar e tão pouco soviético como Zostchenko, estará à altura dessa tarefa? A redação da «Zviezda» então ignorava a feição de Zostchenko? Pois ainda recentemente, em princípios de 1944, a revista «Bolchevique» criticou violentamente uma revoltante novela de Zostchenko, «Antes do Nascer do Sol», publicada em plena guerra de libertação do povo soviético contra os invasores alemães. Nessa novela Zostchenko esvazia sua alma pequena, vulgar e baixa, com deleitos, com glutoneria, desejoso de dizer a todos: «Vejam como sou canalha».
É difícil encontrar, em nossa literatura, algo mais repugnante do que a «moral» apresentada por Zostchenko em sua novela «Antes do Nascer do Sol», apresentando os homens soviéticos e ele próprio, como animais horrendas e lúbricos, sem pudor e sem consciência. Ofereceu essa moral aos leitores soviéticos na ocasião em que nosso povo derramava seu sangue numa guerra penosa, sem precedente, quando a vida do Estado soviético estava por um fio, quando o povo soviético fazia sacrifícios sem número para derrotar os alemães. Enquanto isso emboscado em Alma-Ata, absolutamente na retaguarda, Zostchenko nada fez para ajudar nessa ocasião o povo soviético em sua luta contra os invasores alemães. Foi absolutamente justa a vergastada pública que ele levou no «Bolchevique», considerado como estranho à literatura soviética, como um vulgar libelista. Pouco lhe importava nessa época a opinião pública. E eis que, dois anos mais tarde, nem bem seca estava ainda a tinta do artigo cio «Bolchevique», esse mesmo Zostchenko volta triunfantemente a Leningrado e se agita livremente nas páginas das revistas da cidade. Não só «Zviezda», como também a revista «Leningrado» aceitam de bom grado suas colaborações. As salas dos teatros são postas graciosamente à sua disposição. Muito mais, dão-lhe a possibilidade de ocupar uma posição destacada na seção de Leningrado da União dos Escritores e de desempenhar um papel ativo na vida literária da cidade. Por que razão permitis que Zostchenko percorra dessa maneira os jardins e os parques da literatura de Leningrado? Por que os ativistas de Leningrado, por que a organização dos escritores permitiram fatos tão vergonhosos?
Essa feição social-política e literária de Zostchenko, completamente podre e corrupta, já se definiu há algum tempo. Esses trabalhos atuada não foram escritos por acaso. São a continuação de todos o seu passado| literário, que remonta aos anos da década de 20.
Quem era Zostchenko no passado? Era um dos organizadores do grupo literário denominado «Os Irmãos Serapião». Qual a feição social-política de Zostchenko nessa época? Permiti que me refira à revista «Anais Literários», n.º 3, de 1922, em que os fundadores desse grupo publicaram seu «credo». Entre outras revelações encontramos nela o «símbolo da fé» de Zostchenko, num opúsculo intitulado «Sobre mim e sobre mais alguma coisa». Zostchenko, sem a menor cerimônia, faz declaração pública e exprime de maneira absolutamente clara suas «opiniões» políticas e literárias. Escutai o que ele diz:
«Em geral é difícil ser escritor. Tomemos a ideologia. . . Hoje exige-se uma ideologia do escritor. . . Que peso, francamente. . . Digam-me, qual «exatamente a ideologia» que posso ter, se nenhum partido, em seu conjunto, me atrai? Do ponto de vista dos homens de partido, sou um homem sem princípios. De acordo com meu ponto de vista, diria a respeito de mim mesmo: não sou nem comunista, nem social-revolucionário, nem monarquista, mas simplesmente russo, e ainda por cima politicamente amoral. . . Palavra de honra, não sei até hoje, digamos, por exemplo, Gutchkov, a que partido pertence? Para o inferno com o partido a que ele pertence... Sei que ele não é bolchevique, mas será social-revolucionário ou cadete? Não sei, nem quero saber», etc. etc.
Que achais, camaradas, dessa ideologia? 25 anos se passaram desde que Zostchenko publicou essa confissão. Mudou ele desde então? Não parece. Desde há 25 anos, não só nada aprendeu e não mudou, como ao contrário, com franqueza cínica, continua a ser o apologista da indiferença e da vulgaridade, um canalha literário sem princípio e sem consciência. Isto significa que as instituições soviéticas, hoje como ontem, desagradam a Zostchenko. Hoje como ontem, é ele estranho e hostil à literatura soviética. Se, apesar de tudo isso, Zostchenko quase se tornou em Leningrado o corifeu da literatura, se o Parnaso de Leningrado o incensa, só podemos nos espantar do grau de indiferença, de facilidade, a que chegaram os que abriram caminho a Zostchenko, fazendo-lhe elogios!
Permiti que cite ainda outro fato que ilustra a feição dos «Irmãos Serapião». No mesmo n. 3 dos «Anais Literários» de 1922, um outro Serapião, Lev Lounz, procura também imprimir um fundo ideológico à orientação nociva e estranha à literatura soviética, que representa o grupo em questão. Lounz escreveu:
«Nós nos reunimos num momento de poderosa tensão revolucionária e política. " Aquele que não esta conosco está contra nós», repetiam-nos de um lado e de outro.
Com quem estais, Irmãos Serapião, com os comunistas, ou contra os comunistas, pela Revolução ou contra a Revolução? Com quem estamos, Irmãos Serapião? Estamos com o anacoreta Serapião...
Durante muito tempo e de maneira muito dolorosa a literatura russa foi regida pela política. . . Não queremos utilitarismos. Não escrevemos para fazer propaganda. A arte é uma realidade, assim como a própria vida, e, como a própria vida, não tem objetivo, nem significação, existe porque não pode deixar de existir».
Durante muito tempo e de maneira muito dolorosa a literatura russa foi regida pela política. . . Não queremos utilitarismos. Não escrevemos para fazer propaganda. A arte é uma realidade, assim como a própria vida, e, como a própria vida, não tem objetivo, nem significação, existe porque não pode deixar de existir».
Eis o papel que os Irmãos Serapião destinam à arte, negando-lhe qualquer ideologia, qualquer significação social, proclamando sua indiferença, a arte pela arte, a arte sem objetivo e sem significação. É pura propaganda de um apoliticismo podre, da burguesia e da vulgaridade.
Que conclusão tirar? Se as instituições soviéticas desagradam a Zostchenko, que se deverá fazer: adaptar-se a Zostchenko ? Não somos nós que devemos nos adaptar a seus gostos. Não somas nós que devemos modificar nossos costumes e nosso regime à sua vontade. Ele que se adapte, e se não quiser — que se despeça da literatura soviética. A literatura soviética não tem lugar para obras corruptas, vazias de idéias e vulgares.
Foi isso que determinou o Comitê Central a tomar uma decisão a respeito das revistas "Zviezda" e "Leningrado".
Degradação do Grupo Literário dos «Akmeistas»
EXAMINEMOS agora a obra literária de Anna Akhmatova. Ultimamente suas obras têm reaparecido nas revistas de Leningrado, que lhe têm concedido espaço considerável. É tão espantoso e desconcertante isso, como se alguém houvesse tido a idéia de reeditar hoje as obras de Merejkovsky, Vietcheslav Ivanov, Michel Kuzmin, André Beely, Zinaide Hippius, Feodor Sologub, Zinovieva Annibal, etc. etc.; em outras palavras, todos aqueles que nossa literatura e a vanguarda de nossa opinião pública sempre consideraram como representantes do obscurantismo reacionário, como renegados na política e na arte.
Gorki em sua época dizia que os dez anos de 1907 a 1917 mereciam ser considerados como a década mais vergonhosa e mais estéril da história da intelectualidade russa, quando depois da Revolução de 1905 uma porção considerável dessa intelectualidade afastou-se da Revolução e acabou se afundando nos charcos da mística reacionária e da pornografia, brandindo a indiferença ideológica como uma bandeira, disfarçando sua traição nesta «bonita» estrofe:
«E queimei tudo o que venerava, rendendo homenagens ao que queimará».
É exatamente dessa época que datam as obras de renegados como «O Corsário Branco» de Ropchin, as obras de Vinnitchenko e outros desertores do Campo da Revolução para o da reação, que se apressaram a trair os grandes ideais pelos quais lutou a parte mais progressista da sociedade russa. Surgiram os simbolistas, os imaginistas, os decadentes de toda espécie, renegando o povo, proclamando a tese da «arte pela arte» preconizando o apoliticismo na literatura, camuflando sua corrupção ideológica e moral em busca da beleza vazia da forma. O medo animal da Revolução proletária, que se avizinhava, unia-os a todos. Basta lembrar que um dos maiores ideólogos dessas correntes literárias reacionárias foi Merejkovsky, que chamava a Revolução proletária iminente de «Rei Malandro» e que recebeu a Revolução de Outubro com um ódio bestial.
Anna Akhmatova é uma das representantes desse pântano literário apolítico e reacionário. Pertence ao grupo literário denominado «akmeistas» que se destacou, na ocasião, do grupo dos simbolistas. É um dos arautos, da poesia vazia, apolítica, aristocrática, de salão, absolutamente estranha à literatura soviética. Os «akmeistas» representavam uma corrente extremamente individualista na arte. Preconizavam a teoria da «arte pela arte», da «beleza pela beleza», não queria nada com o povo, com suas necessidades, seus interesses, com a vida pública.
No que diz respeito a suas origens sociais, era uma corrente de nobreza burguesa na literatura, numa época em que os dias da aristocracia e da burguesia estavam contados e em que os poetas e os ideólogos das classes dirigentes procuravam evitar à realidade desagradável, refugiando-se nas alturas nebulosas e nas brumas da mística religiosa, nas suas pequenas experiências pessoais e na análise de suas almas pusilânimes. Os «akmeistas», como os simbolistas e os decadentes, ou outros representantes da dissolvente ideologia burguesa, foram os apologistas do derrotismo, do pessimismo, da crença num mundo do além.
Toda a inspiração de Akhmatova é essencialmente individualista.
O diapasão de sua poesia é extremamente pobre — poesia de uma mulherzinha histérica, que se debate entre a alcova e o oratório. O que nela domina são os temas amorosos, eróticos, acompanhados dos temas da tristeza, da melancolia, da morte, da mística, da fatalidade. O sentimento da fatalidade — sentimento compreensível num grupo social que se extingue — o tom doloroso do desespero mortal, de transportes místicos mesclados de erotismo, esse. o mundo espiritual de Akhmatova, que não é senão o vestígio de uma velha: "cultura aristocrática desaparecida para sempre na eternidade do mundo «dos bons velhos tempos. ( de Catarina». Freira ou libertina, ou antes freira e libertina, em quem, a libertinagem se alia à oração..:
«...Mas eu te juro pelo jardim dos anjos, Eu te juro pela imagem milagrosa,
Pelos êxtases ardentes de nossas noite...» (Akhmatova. Anno Domini).
Pelos êxtases ardentes de nossas noite...» (Akhmatova. Anno Domini).
Essa é Akhmatova, com sua pequena e mesquinha vida pessoal, seus sentimentos pusilânimes e seu erotismo religioso e místico.
Sua poesia não tem nada de comum com o povo. É a poesia de 10.000 privilegiados da "velha Rússia aristocrática, condenados a suspirar pelos «velhos bons tempos». As casas de campo senhoriais do tempo de Catarina II, com suas avenidas de árvores seculares, fontes, estátuas, arcos de pedra, estufas, com seus pequenos bosques românticos e seus brasões decrépitos sobre os portões. A São Petersburgo de antanho; o Tsarkoé-Selo; a música de Pavlovsk e outras relíquias da cultura aristocrática. Tudo isso esvaiu-se em um passado que não volta- Os vestígios dessa cultura tão longínqua e estranha ao povo, conservados por um milagre qualquer até nossos dias, não têm nada de melhor a fazer do que se encerrarem em si próprios e viver de quimeras. «Tudo foi pilhado, traído, vendido», escreve Akhmatova.
Um dos mais importantes representantes desse grupo, Ossip Mandeistam, escrevia pouco antes da Revolução, a respeito dos ideais social-políticos e literários dos «akmeistas»:
«Os «akmeistas» têm o mesmo amor do organismo e da organização que a idade média fisiològicamente genial... A idade média, determinando à sua maneira o peso específico do homem, o considerava e reconhecia como absolutamente independente de seus serviços... Sim, a Europa passou pelo labirinto de uma cultura cuidadosa quando a vida abstrata, a existência pessoal sem qualquer ornamento eram consideradas como uma façanha. Dai a intimidade aristocrática, ligando todos os homens, tão estranha ao espírito de «igualdade e fraternidade» da grande Revolução... A idade média nos é cara porque nela existia um alto sentimento dos limites e das barreiras. A. mistura generosa do pensamento e da mística, a concepção do mundo como um equilíbrio vivo, nos aproximam dessa época e nos levam a sorver forças nas obras nascidas na era romana, lá pelo ano de 1200».
Essas idéias de Mandeistam exprimem as aspirações e os ideais dos «akmeistas». «Voltemos atrás, para a Idade Média» — eis o ideal comum desse grupo aristocrático dos salões. Voltemos ao macaco — responde-lhe Zostchenko. Diga-se de passagem, que tanto os «akmeistas» como os Irmãos Serapião têm o mesmo antepassado.
Para uns e para outros, é Hoffmann um dos fundadores da decadência e do misticismo aristocrático de salão.
Por que então, de repente, popularizar a poesia de Akhmatova? Que tem ela de comum conosco, com o povo soviético? Qual a necessidade de conceder uma tribuna literária a todas essas tendências decadentes e que nos são profundamente estranhas?
Sabemos pela história e pela literatura russa que mais de urna vez as correntes literárias reacionárias, a que pertencem os simbolistas e os «akmeistas», procuraram pregar uma cruzada contra as grandes tradições democrático-revolucionárias da literatura russa, contra seus representantes de vanguarda; procuraram privar a literatura de seu dignificado elevado, ideológico e social, de rebaixá-la ao pântano do apoliticismo e da vulgaridade. Todas essas tendências que estão «em moda» foram afagadas no Lethes e rejeitadas no passado, com as classes ideologia refletiam. Todos esses «akmeistas», simbolistas, esses camisas «amarelas», esses «valetes de ouro», esses «negadores», que . deixaram eles em nossa literatura soviética russa? Nada, absolutamente, apesar de sua cruzada contra os grandes representantes da literatura democrático-revolucionária russa — Belinsky, Dobrolubov, Tchernychevsky, Herzen, Saltykov, Tchedrin — ter sido preparada de maneira muito ruidosa e pretensiosa- para ter fracassado tão completamente.
Servilismo Ante a Literatura Pequeno-Burguesa
Os «AKMEISTAS» proclamaram: «Não modificar nada na vida c não criticá-la». Por que se opunham eles a que a vida fosse modificada? Pôr que esses velhos costumes burgueses e aristocráticos lhes eram agradáveis e o povo revolucionário se preparava para destruir esse modo de vida. Em outubro de 1917, as classes dirigentes, bem como suas ideologias e seus poetas, foram atirados aos esgotos da história.
E eis que no 29.º ano da Revolução Socialista, inopinadamente, reaparecem essas antiguidades do mundo das trevas e se põem a doutrinar nossa juventude sobre a maneira de viver. Akhmatova teve abertas, bem grandes, as páginas da revista e pôde, livremente, envenenar a consciência da juventude com o espírito deletério de sua poesia. A revista Leningrado publicou em um de seus números uma espécie de antologia das obras de Akhmatova, escritas de 1909 a 1944. Em meio a esse montão de inutilidade, notemos um poema escrito na ocasião de sua evacuação durante a Grande Guerra Patriótica. Nessa poesia, ela descreve sua solidão, que foi obrigada a partilhar com um gato preto. O gato preto encara-a como os olhos do século. O tema não é novo. Akhmatova já falava do gato preto em 1909. O sentimento da solidão e do desespero, estranho à literatura soviética, encontra-se por toda a obra de Akhmatova.
Que há de comum entre essa poesia e os interesses de nosso povo e de nosso Estado? Absolutamente nada. A obra de Akhmatovapertence ao passado longínquo; é absolutamente estranha à realidade soviética atual e não devemos admiti-la nas páginas de nossas revistas. Nossa literatura não é uma empresa privada, destinada a satisfazer os diversos gostos do mercado literário. Não somos absolutamente obrigados a ceder um lugar em nossa literatura aos gostos e costumes que nada têm em comum com a moral e as virtudes dos homens soviéticos. Que podem ensinar à nossa juventude as obras de Akhmatova? Nada, a não ser o mal. Não podem senão semear o desânimo, o derrotismo, o pessimismo, o desejo de se afastar das questões fundamentais da vida social, de deixar a grande estrada da vida e da atividade social por um pequeno e estreito universo de emoções pessoais. Como é possível confiar-lhe a educação de nossa juventude? E no entanto foi com grande solicitude que se publicaram as obras de Akhmatova em Zviezda e Leningrado e, o que é pior, publicou-se toda a coleção de seus versos. Foi um grande erro político.
Não foi por acaso que depois de tudo isso as revistas de Leningrado começaram a publicar as obras de outros escritores que também haviam adotado atitudes de indiferença e decadência. Refiro-me às obras de Sadofiev e de Komissarova. Em alguns de seus versos, esses dois poetas seguiram os passos de Akhmatova, cultivando, eles também, um espírito de desânimo, de tristeza e de solidão, tão caro ã alma deAkhmatova.
Sem dúvida alguma essas tendências, ou um estado de espírito dessa natureza, não podem deixar de ter influência negativa sobre nossa juventude, de envenenar sua consciência com o espírito corrupto a indiferença, do apoliticismo e do desânimo.
E que teria acontecido se houvéssemos educado nossa juventude no espírito de desânimo e de descrença a respeito de nossa obra? Não teríamos, certamente, obtido o triunfo na Grande Guerra Patriótica. Foi precisamente porque o Estado Soviético e nosso partido, com o auxílio da literatura soviética, educaram a juventude no espírito de entusiasmo, de confiança em suas forças, precisamente porque superamos as maiores dificuldades na edificação do socialismo, que pudemos conquistar a vitória sobre os alemães e os japoneses.
Que decorre de tudo isto ? Decorre que a revista «Zviezda» publicando obras de valor, ideológicas, estimulantes, juntamente com obras apolíticas, vulgares, reacionárias, tornou-se uma revista sem orientação, que ajuda os inimigos a desagregar nossa juventude. Ora, nossas revistas sempre foram fortes devido a suas tendências estimuladoras e revolucionárias e não pelo ecletismo, a indiferença e o apoliticismo. A propaganda da indiferença recebeu regalias na revista «Zviezda». Mais ainda, diz-se que Zostchenko adquiriu tal influência entre as organizações de escritores em Leningrado que chegou a atacar os indóceis e ameaçar de difamação os que criticassem suas obras futuras. Parecia quase um ditador literário. Vivia cercado de um grupo de admiradores que o lisonjeavam.
Por que razão, perguntamos? Por que permitistes essas atividades anti-naturais e reacionárias?
Não foi absolutamente por acaso que as revistas literárias de Leningrado se encheram de admiração pela literatura contemporânea burguesa, de baixo nível, do Ocidente. Alguns de nossos escritores começaram a se considerar não como mestres, mas como alunos dos escritores pequeno burgueses, adotaram o tom de servilismo e de admiração para com uma literatura estrangeira mesquinha. Por acaso nos convém, a nós patriotas soviéticos, esse servilismo, a nós que edificamos o regime soviético que ê cem vezes superior e melhor que qualquer regime burguês? Por acaso convém à nossa literatura soviética, progressista, a mais revolucionária do mundo, esse servilismo para com a literatura mesquinha e pequeno burguesa do Ocidente?
Não foi absolutamente por acaso que as revistas literárias de Leningrado se encheram de admiração pela literatura contemporânea burguesa, de baixo nível, do Ocidente. Alguns de nossos escritores começaram a se considerar não como mestres, mas como alunos dos escritores pequeno burgueses, adotaram o tom de servilismo e de admiração para com uma literatura estrangeira mesquinha. Por acaso nos convém, a nós patriotas soviéticos, esse servilismo, a nós que edificamos o regime soviético que ê cem vezes superior e melhor que qualquer regime burguês? Por acaso convém à nossa literatura soviética, progressista, a mais revolucionária do mundo, esse servilismo para com a literatura mesquinha e pequeno burguesa do Ocidente?
O grande erro de nossos escritores foi de um lado, se afastarem dos temas soviéticos atuais, se acantonarem num tema histórico, e de outro, procurarem utilizar apenas temas divertidos e vazios. Certos escritores, para se justificarem de se terem afastado dos grandes temas soviéticos atuais, dizem que chegou a hora em que o povo tem necessidade de uma literatura divertida e vazia, em que não se precisa de ideologia nas obras. Isto é fazer uma idéia profundamente errada de nosso povo, de suas necessidades o de seus interesses. Nosso povo espera que os escritores soviéticos exprimam c generalizem a imensa experiência que ele tirou da Grande Guerra Patriótica, que eles descrevam e generalizem o heroísmo com que esse mesmo povo trabalha hoje para reerguer, uma vez expulsos os inimigos, a economia nacional j do país.
A Revista «Leningrado» e a Causa dos Seus Erros
ALGUMAS palavras a respeito da revista Leningrado. Zostchenko nela ocupa uma posição ainda mais sólida do que em Zviezda, assim comoAkhmatova. Tornaram-se os dois uma força literária ativa nessas revistas. Assim a revista Leningrado é responsável por ter posto suas páginas à disposição de um escritor tão vulgar como Zostchenko e de uma poetisa de salão da espécie de Akhmatova. Mas a revista Leningrado cometeu outros erros. Eis por exemplo a parodia de Eugênio Oneguin, escrita por um certo Hazin. Essa obra intitula-se: «A Volta de Oneguin».
Diz-se que se pode assisti-la freqüentemente nos teatros de Leningrado. É incompreensível que os leningradenses permitam que se ridicularize publicamente Leningrado, como o faz Hazin. Pois o sentido de toda essa paródia, dita literária, não é apenas uma caçoada inofensiva das aventuras de Oneguin, correndo atualmente em Leningrado. O sentido desse libelo de Hazin consiste em comparar nossa Leningrado de hoje à São Petersburgo da época de Pushkin e em demonstrar que nosso século é inferior ao de Oneguin. Examinemos pelo menos alguns versos dessa paródia. Nada agrada ao autor na Leningrado de hoje. Somente zombarias malévolas e calúnias dos homens soviéticos e de Leningrado, ao passo que o século de Oneguin é a idade de ouro, \ segundo Hazin. Hoje as coisas são diferentes — surgiram os salvo-condutos, os cartões de racionamento, o serviço nos quartéis. As jovens, aquelas criaturas etéreas e sobrenaturais que Oneguin admirava outrora, tornaram-se agora inspetoras do trânsito, elas reconstroem as casas etc. etc.. Permití-me citar ao menos uma passagem dessa “?paródia?”:
«Eis que nosso Eugênio sobe no bonde.
Pobre, bom homem!
Seu século inculto
Não conheceu esse meia de transporte.
A sorte lhe sorriu
Só lhe pisaram os pés,
E apenas uma vez, empurrando-o,
Chamaram-no de «idiota».
Ele, lembrando-se dos costumes de outrora,
Quis encerrar o incidente com um duelo.
Remexeu nos bolsos,
Mas há muito tempo já lhe haviam
Subtraído as luvas.
Na .falta das luvas não teve remédio senão
Ficar de boca fechada».
Pobre, bom homem!
Seu século inculto
Não conheceu esse meia de transporte.
A sorte lhe sorriu
Só lhe pisaram os pés,
E apenas uma vez, empurrando-o,
Chamaram-no de «idiota».
Ele, lembrando-se dos costumes de outrora,
Quis encerrar o incidente com um duelo.
Remexeu nos bolsos,
Mas há muito tempo já lhe haviam
Subtraído as luvas.
Na .falta das luvas não teve remédio senão
Ficar de boca fechada».
Eis aí Leningrado tal como era e tal como se tornou hoje em dia: feia, inculta, grosseira; como desagradou ao pobre, ao bom Oneguin. c assim que Hazin apresenta Leningrado e seus habitantes.
Que tendência maldosa, corrupta e podre nessa parodia caluniadora! Como pôde a redação de Leningrado deixar passar essa maldosa calúnia da cidade e de seus magníficos habitantes? Como se podem admitir Hazines nas revistas de Leningrado?
Que tendência maldosa, corrupta e podre nessa parodia caluniadora! Como pôde a redação de Leningrado deixar passar essa maldosa calúnia da cidade e de seus magníficos habitantes? Como se podem admitir Hazines nas revistas de Leningrado?
Tomemos uma outra obra, a parodia de uma parodia sobre Nekrasov, escrita de tal sorte que é um insulto direto à memória do grande poeta e do homem público que ele foi, insulto com o qual se devia indignar todo homem culto. Ora, a redação de Leningrado publicou com boa vontade esse vulgar ensopado literário.
Que encontramos ainda na revista Leningrado? Uma anedota estrangeira, sem graça e vulgar, tirada provavelmente das antigas coleções de anedotas surradas do fim do último século. Não terá, essa revista nada melhor para publicar? Não há nenhum assunto literário? Vede, por exemplo, o tema da reconstrução de Leningrado. Um trabalho magnífico se desenrola, a cidade cura suas feridas causadas pelo cerco. OS leningradenses estão cheios de entusiasmo e da alegria da reconstrução do após guerra. A revista Leningrado diz, por acaso, uma palavra sobre isso? Os habitantes de Leningrado terão o prazer de ver seus feitos refletidos nas páginas da revista?
Consideremos agora o tema da mulher soviética. Será possível permitir que se cultivem entre os leitores e feitoras soviéticos as opiniões impudicas de Akhmatova sobre o papel da mulher, sem dar uma única idéia exata, da mulher soviética em geral, da jovem e da mulher heroína de Leningrado em particular, que suportaram todo o peso das enormes dificuldades da "guerra e que trabalham hoje abnegadamente para levar a caba as árduas tarefas da reconstrução econômica?
Como se vê, a situação na seção de Leningrado da União dos Escritores é tal que no momento atual as obras de valor não são suficientes para duas revistas literárias e artísticas. Eis por que o Comitê Central da Partido decidiu suspender a revista Leningrado a fim de concentrar todas as melhores forças literárias na revista Zviezda. Isto, naturalmente, não significa que Leningrado não possuirá, em condições favoráveis, uma segunda e mesmo uma terceira revista. A questão será decidida pela número de obras de qualidade, de grande valor. Se estas forem bastante numerosas e se uma única revista não for suficiente, então poder-se-á criar uma segunda ou uma terceira revista, mas sob a condição única de que nossos escritores de Leningrado produzam obras de valor, da ponto de vista ideológico e artístico.
Foram esses os erros e as deficiências maiores revelados e destacados pela resolução do Comitê Central do Partido Comunista em relação às revistas Zviezda e Leningrado.» Qual a origem desses erros e dessas deficiências?
Sua origem decorre do fato de que os redatores das revistas em questão, nossos escritores soviéticos, bem como os chefes de nossa frente ideológica em Leningrado, esqueceram-se de alguns dos princípios fundamentais do leninismo sobre a literatura. Numerosos escritores, e entre eles os que ocupam postos de responsabilidade como redatores, ou na União das Escritores, pensam que a política é um negócio de governo, um negócio do Comitê Central. Quanto aos literatos, a política não lhes diz respeito. Se um homem escreve bem, artisticamente, numa bela forma -— é preciso publicar, apesar das passagens corrompidas que desorientam nossa juventude e a envenenam. Exigimos, que nossos camaradas, tanto os responsáveis literários como os que escrevem, se inspirem no princípio sem o qual o regime soviético não pode viver, isto é, a política, a fim de que nossa juventude não seja educada num espírito de indiferença e de displicência, e sim num espírito de entusiasmo revolucionário.
O Papel Social da Arte Progressista
Sabe-se que o leninismo assimilou todas as melhores tradições dos revolucionários democratas russos do século XIX e que nossa cultura soviética nasceu, desenvolveu-se e desabrochou graças à sua herança cultural do passado, sujeita a uma crítica aprofundada., No domínio da literatura nosso Partido reconheceu mais de uma vez, através as palavras Lênin e Stálin, o importantíssimo papel dos grandes escritores e críticos revolucionários democratas — Belinsky, Dobrolubov, Tchernychevsky, Saltykov-Tchedrin, Plekhanov. Começando por. Belinsky, todos os melhores representantes da intelectualidade revolucionária democrata não reconheciam a suposta «arte pura», «arte ( pela arte», e preconizavam a arte para o povo, sua alta significação ideológica e social. A arte não se pode afastar do destino do povo. j Lembrai-vos da famosa «Carta a Gogol» de Belinsky, em que o grande crítico fustigou apaixonadamente Gogol por ter este tentado trair o ] povo e passar para o campo do tzar. Lênin caracterizou essa carta | como uma das melhores produções da imprensa democrática não censurada, tendo conservado um grande alcance literário até o presente. -Lembrai-vos dos artigos jornalísticos e literários de Dobrolubov que mostram com tanta força todo o alcance social da literatura. } Toda nossa literatura publicista revolucionário-democrática está impregnada de um ódio mortal ao regime tzarista e saturada do desejo gene- j roso de lutar pelos interesses vitais do povo, pela sua cultura, sua instrução, sua libertação das cadeias do regime tzarista. Para os grandes , literatos russos, a literatura e a arte são meios de combate e de luta pelos supremos ideais do povo. Tchernychevsky, aquele que entre todos j os socialistas utópicos mais se aproximou do socialismo científico, e cuja obra, como dizia Lênin, «irradiava o espírito da luta de classes»; ensinava que o objetivo da arte era não só compreender a vida, mas ainda ensinar os homens a apreciar em seu justo valor os diferentes fenômenos sociais. Seu amigo e companheiro de luta mais íntimo, Dobrolubov, acentuava que «a vida não segue as normas literárias, mas a literatura se adapta às tendências da vida» e preconizava intensivamente os princípios do realismo e do populismo na literatura, julgando e a arte suprema era a realidade, que esta era a fonte da arte e a arte tinha um papel ativo na vida social, formando a consciência da Segundo Dobrolubov, a literatura deveria servir à sociedade, dar s° povos respostas para as questões atuais mais prementes, e manter-se no nível das idéias de sua época.
A crítica literária marxista, continuando as grandes tradições de Belinsky, Tchernychevsky, Dobrolubov, sempre foi a campeã da arte social.Plekhanov muito trabalhou para desmascarar as concepções idealistas e anti-científicas da literatura e da arte e para defender os princípios fundamentais de nossos grandes revolucionários democratas que sempre ensinaram que a literatura é um instrumento poderoso para servir aos interesses do povo.
Foi Lênin quem primeiro exprimiu com a maior nitidez o ponto de vista do pensamento social progressista sobre a literatura e a arte. Quero lembrar-vos o célebre artigo de Lênin «A Organização do Partido e a Literatura de Partido», escrito em fins de 1905, onde eles mostrou, com o vigor que lhe é próprio, que a literatura não podia deixar de ter partido, que devia ser um fator importante na luta do proletariado. Nesse artigo ele apresentou todos os princípios que constituem a base do desenvolvimento de nossa literatura soviética. Lênin escreve:
«A literatura deve tornar-se a obra do partido. Contra os costumes burgueses, a imprensa burguesa do comércio e da empresa, contra o carreirismo e o individualismo literários burgueses, a «anarquia senhoria » e a caça aos lucros, o proletariado socialista deve apresentar o princípio de uma literatura de partido, desenvolver esse princípio e lhe dar vida da maneira mais completa».
Em que consiste esse princípio de literatura de partido? Não somente em que a literatura proletária socialista não pode ser um meio de enriquecimento de um indivíduo ou de um grupo, mas que em geral não pode ser nem individual, nem independente da obra comum do proletariado. Abaixo os escritores sem partido! Abaixo os escritores super-homens! A literatura deve tornar-se parte integrante da luta proletária».
Mais adiante, no mesmo artigo diz Lênin:
«É impossível viver na sociedade e dela não depender. A liberdade do escritor, do artista, da atriz burguesa não é senão a dependência camuflada (ou hipocritamente disfarçada) da bolsa do empresário».
O leninismo parte do princípio de que nossa literatura não pode ser apolítica, não pode considerar «a arte pela arte», mas deve desempenhar Um papel de vanguarda na vida social. Nisso se inspira o princípio leninista da literatura de partido — a contribuição mais preciosa de Lênin à ciência da literatura.
Segue-se daí que a melhor tradição da literatura soviética continua as melhores tradições da literatura russa do século XIX, tradições criadas por nossos grandes revolucionários democratas - Belinsky, Dobrolubov, Tchernychevsky, Saltykov-Tchedrin, seguidos por Plekhanov — formuladas e elaboradas cientificamente por Lênin e Stálin.
Nekrasov chamava sua poesia «a musa da vingança e da dor». Tchernychevsky e Dobrolubov consideravam a literatura como um dever sagrado para com o povo Os melhores representantes da intelectualidade ] democrática russa morriam, sob o regime tzarista, por essas grandes! Idéias generosas, eram condenados à prisão e ao exílio. Como é possível] esquecer-se dessas gloriosas tradições? Como não levá-las em consideração, como permitir que Akhmatovas e Zostchenkos lancem às escondidas palavras de ordem reacionárias da «arte pela arte» e, disfarçando-se com a máscara do apoliticismo, imponham idéias estranhas ao povo soviético?
O leninismo empresta à nossa literatura soviética uma grande importância social e educativa. Se nossa literatura soviética permitir que J esse papel educador seja rebaixado — isto significaria um recuo, ai volta à «idade da pedra».
O camarada Stálin denominou nossos escritores «os engenheiros da alma humana». Essa definição tem uma grande significação. Sub-entende a enorme responsabilidade dos escritores soviéticos na educação dos homens, da juventude, em sua vigilância para não permitir produtos literários defeituosos.
Certas pessoas estranham que o Comitê Central tenha tomado medidas tão fortes numa questão literária. Não estão habituados a isto. Acham perfeitamente natural a severidade nas questões de infrações! na produção, ou de atraso na realização de programa da produção ou dos estoques de madeira, mas quanto às infrações na educação da alma.-humana ou da juventude, estas são toleradas. No entanto, não são estas faltas muito mais graves do que a não-realização de um programa de produção ou o fracasso de uma tarefa industrial? Com sua resolução, o Comitê Central pretende colocar a frente ideológica acima de todos os outros ramos de nosso trabalho.
Ultimamente foram notadas grandes deficiências e brechas na frente ideológica. Basta citar-vos o atraso de nossa arte cinematográfica. Quanto joio entre essas produções de nosso repertório dramático, sem contar o que aconteceu nas revistas Zviezda e Leningrado. O Comitê Central foi forçado a intervir, e a modificar categoricamente a situação. Não tinha mais o direito de atenuar o golpe que vibrava naqueles que se esquecem de suas obrigações para com o povo e a educação da juventude. Se quisermos chamar a atenção de nossos ativistas para os problemas ideológicos e a fazê-lo com ordem, orientando claramente a tarefa a cumprir, deveremos criticar duramente, como convém a homens soviéticos, a bolcheviques, os erros e as deficiências do trabalho ideológico. Só então conseguiremos modificar a situação.
Certos escritores raciocinam da seguinte maneira: considerando-se que durante a guerra o povo passou fome de literatura, que se publicavam poucos livros, o leitor engolirá qualquer mercadoria, mesmo apodrecida. No entanto, não é o que acontece e não podemos admitir essa espécie de literatura que nos irão apresentar escritores, redatores e editores sem discernimento. O povo espera dos escritores soviéticos uma verdadeira armadura ideológica, uma alimentação espiritual que o ajudará a realizar os planos da grande construção, da restauração e. do envolvimento da economia nacional de nosso país.
Exige muito dos escritores, deseja ver satisfeitas suas aspirações ideológicas e culturais. Durante a guerra, devido às circunstâncias, não pudemos satisfazer suas necessidades vitais. O povo quer que se expressem os acontecimentos passados. Seu nível ideológico e cultural elevou-se. Freqüentemente não fica satisfeito com a qualidade das obras literárias e artísticas que se publicam em nosso país. Certos escritores e trabalhadores da frente ideológica não querem compreender isto.
O nível das exigências e do gosto de nosso povo elevou-se muito e aquele que não quiser compreendê-lo ou nele não se conseguir manter ficará para trás. A literatura não se destina unicamente a seguir o nível das necessidades do povo, muito mais, deve desenvolver seus gostos, elevar suas exigências, enriquecê-lo com idéias novas, levá-lo para diante. Aquele que não puder seguir o povo, satisfazer suas aspirações, manter-se no nível de desenvolvimento da cultura soviética, tornar-se-á forçosamente inútil.
Outro grande erro decorre da, insuficiência ideológica dos diretores de Zviezda e Leningrado. Esse erro consiste em que alguns de nossos trabalhadores da direção haviam colocado em primeiro plano suas relações com os escritores, não os interesses da educação dos homens soviéticos e de suas tendências políticas, mas interesses pessoais e de camaradagem. Diz-se que numerosas obras perigosas ideologicamente, e fracas artisticamente, foram publicadas por medo de ofender, este ou aquele escritor. Do ponto de vista desses redatores, .era melhor sacrificar os interesses de povo e os do Estado a fim de não defender ninguém. Essa é uma situação perfeitamente injusta e politicamente errada, é como se se pretendesse trocar um milhão por um tostão.
Desenvolver o Espírito Crítico
O Comitê Central do Partido assinalou em sua resolução o grande perigo que existe no fato de substituir uma atitude de princípio na literatura por relações, de camaradagem. Essa atitude de camaradagem, sem princípios, de certos escritores nossos, teve uma influência profundamente negativa, provocou o abaixamento do nível ideológico de numerosas obras literárias e facilitou o acesso à literatura a elementos estranhos à literatura soviética. A ausência de senso critico nos chefes da frente, ideológica em Leningrado, nos redatores das revistas da cidade, a substituição de uma atitude, de princípio por relações de camaradagem, à custa dos interesses do povo, causaram um grande prejuízo.
O camarada Stálin nos ensina que se quisermos conservar quadros, instruí-los e educá-los, não devemos ter medo de ofender ninguém, nem recear uma crítica de princípios audaciosa, franca e objetiva. Sem a crítica, qualquer organização, mesmo literária, pode desagregar-se. Sem a crítica pode-se agravar qualquer doença e será muito mais difícil vencê-la. Só uma crítica ousada e franca pode contribuir para aperfeiçoar nossos cidadãos, levá-lo para a frente e superar as deficiências de seu trabalho, Onde não existe crítica, instala-se a estagnação, falta o ar, não há mais lugar para o progresso.
O camarada Stálin assinalou mais de uma vez que a condição essencial de nosso desenvolvimento é que todo cidadão soviético deve fazer corajosamente o balanço de seu trabalho, criticar suas deficiências e seus erros, refletir sobre a possibilidade de obter melhores resultados e trabalhar sem descansa para seu aperfeiçoamento. Isto se refere tanto aos escritores como aos demais trabalhadores. Aquele que tem medo de criticar seu trabalho é um poltrão desprezível, indigno da estima do povo.
A atitude não-crítica a respeito do trabalho, a substituição de uma atitude de princípio para com os escritores por uma atitude de camaradagem também está muito disseminada na direção da União dos Escritores Soviéticos. A direção da União, e particularmente seu presidente, o camarada Tikhonov, são responsáveis pelos erros descobertos nas revistas Zviezda e Leningrado, responsáveis não só pelo fato de não terem impedido a infiltração na literatura soviética da influência nociva de Zostchenko, Akhmatova e outros escritores não-soviéticos, como também por terem estimulado a infiltração em nossas revistas de tendências e costumes estranhos à literatura soviética.
O sistema de irresponsabilidade que se instalou na direção das revistas e, particularmente, na redação das revistas de Leningrado, onde não se sabia quem era o responsável pela revista, e pelos seus diferentes setores, onde não se observava nem a ordem mais elementar, esse sistema também influiu para as deficiências das duas revistas.
É indispensável consertar essa situação. Eis por que o Comitê Central em sua resolução designou um redator chefe do Zviezda responsável por suas tendências e pelas altas qualidades ideológicas e artísticas das obras nela publicadas.
A desordem e a anarquia são inadmissíveis nas revistas, como em qualquer outra empresa. É necessária uma responsabilidade precisa para dirigir uma revista e cuidar do material literário por ela publicado.
Deveis restaurar as grandes tradições da literatura e da frente ideológica de Leningrado. É triste e penoso que as revistas de Leningrado, que sempre foram mananciais de idéias progressistas, de uma cultura progressista, tenham-se tornado o refúgio da indiferença e da vulgaridade. É preciso restabelecer a honra de Leningrado, como centro progressista, ideológico e cultural. É preciso recordar que Leningrado foi o berço das organizações bolcheviques de Lênin. Foi em Leningrado que Lênin e Stálin apresentaram os princípios do Partido Bolchevique, os princípios da doutrina e da cultura bolcheviques.
É uma questão de honra paia os escritores de Leningrado, para suas atividades partidárias, restaurar e desenvolver essas gloriosas tradições de Leningrado. A tarefa dos trabalhadores da frente ideológica, e acima de tudo os escritores, consiste em eliminar da literatura de Leningrado o apoliticismo e a vulgaridade, a elevar bem alto o estandarte da literatura soviética progressista, a aproveitar todas as possibilidades de elevar seu nível ideológico e artístico, e não ficar para trás dos temas da atualidade, das necessidades do povo, a desenvolver, por todos os meios, uma crítica ousada de suas deficiências, não uma crítica servil, nem de grupo, nem de confraria, mas uma verdadeira crítica audaciosa e independente, ideológica e bolchevique.
Camaradas, vedes claramente agora o erro grosseiro que o Comitê do Partido em Leningrado admitiu, e particularmente sua seção e seu Secretário de Propaganda, o camarada Chirokov, que havia sido colocada à frente do trabalho ideológico e que é o primeiro responsável pela má direção das revistas. O comitê de Leningrado cometeu um grande erro político adotando, em fins do mês de junho, uma decisão relativa à nova equipe da redação do Zviezda nela incluindo Zostchenko. Só uma cegueira política pode explicar que o secretário do Comitê de Leningrado, Kapustin, e o secretário de propaganda do Comitê de Leningrado Chirokov, tenham tomado uma decisão tão errônea. Repito, todos esses erros devem ser emendados o mais rapidamente e o mais categoricamente possível, a fim de que Leningrado retome seu lugar na vida ideológica de nosso Partido.
Tarefas do Escritor Soviético
Todos nós amamos Leningrado, todos nós amamos nossa organização do Partido em Leningrado, como uma das unidades de vanguarda de nosso Partido. Leningrado não deve ser o refúgio dos diversos canalhas literários que querem explorá-la no seu próprio interesse. Zostchenko,Akhmatova e tutti quanti não amam a Leningrado soviética. Vêem nela o símbolo de outras instituições sociais-políticas e de uma outra ideologia. A antiga São Petersburgo, o Cavaleiro de Bronze, que a encarna aos seus olhos, eis as visões que lhes enchem os olhos. Mas nós amamos a Leningrado soviética, a Leningrado centro progressista da literatura soviética. A célebre coorte dos grandes revolucionários democratas, provenientes de Leningrado, são nossos antepassados diretos, à cuja árvore genealógica pertencemos. As grandes tradições da Leningrado de hoje continuam essas grandes tradições revolucionárias e democráticas que não trocaremos contra nada neste mundo. Que os ativistas de Leningrado analisem seus erros com coragem, sem olhar para trás, sem se deterem a fim de retificar melhor e mais rapidamente suas faltas, e de levar avante nossa obra ideológica. Os bolcheviques de Leningrado devem novamente ocupar seu lugar na vanguarda da ideologia soviética, da consciência social soviética.
Como pôde acontecer que o Comitê do Partido em Leningrado tenha admitido um tal estado de coisas na frente ideológica? Provavelmente interessou-se pelo trabalho prático, corrente, da restauração da cidade, pelo seu progresso industrial e esqueceu-se do papel de seu trabalho ideológico, e este esquecimento custou caro à organização de Leningrado! Não se pode esquecer do trabalho ideológico! As riquezas espirituais de nossos cidadãos são tão importantes quanto suas riquezas materiais. Viver como cego, sem se preocupar, com o dia de amanhã é tão nocivo no domínio da ideologia quanta no da produção material. Nosso homens soviéticos cresceram de tal maneira que não. «engolirão» qualquer produção espiritual que lhes queiram oferecer. Os trabalhadores da cultura e da arte que não se queiram reformar, não poderão satisfazer as exigências crescentes do povo, e perderão rapidamente sua confiança.
Camaradas, nossa literatura soviética vive, e deve viver, pelos interesses do povo e da pátria. A literatura diz respeito ao povo. Eis porque o povo considera cada sucesso vosso, cada uma de vossas obras de valor como vitórias suas. Eis porque se pode comparar cada obra vitoriosa com um combate ganho, ou como uma grande vitória na frente econômica. Pelo contrário, cada fracasso na literatura soviética, é profunda e amargamente sentida pelo povo, pelo Partido, pelo Estado. É precisamente o que visa a resolução do Comitê Central, que se preocupa com os interesses do povo, com sua literatura, e que está extremamente inquieto com a situação dos escritores de Leningrado.
Se homens apolíticos querem privar o batalhão dos escritores soviéticos de Leningrado de seus fundamentos, solapar o aspecto ideológico de seus trabalhos, privar a arte de seus escritores de seu alcance social e educativo o Comitê Central espera que saberão encontrar em si próprios forças suficientes para resistir a todas as tentativas para arrastá-los e às suas revistas na corrente do apoliticismo, da indiferença e da covardia. Estais na vanguarda da frente ideológica; erguem-se diante de vós imensas tarefas de significação internacional; isto deve estimular o sentimento de responsabilidade de todo escritor soviético para com seu povo, seu Estado, seu Partido, assim como a consciência da importância do dever cumprido.
Nossos sucessos desagradam ao mundo burguês, tanto em nosso país como na arena internacional. Depois da segunda guerra mundial consolidaram-se as posições socialistas. O socialismo está na ordem do dia em numerosos países da Europa, p que contraria os imperialistas de toda espécie. Eles temem o socialismo, temem nosso país socialista que é um modelo para toda a humanidade progressista. Os imperialistas, seus êmulos ideológicos, seus escritores e seus jornalistas, seus políticos e seus diplomatas procuram por todos os meios caluniar nosso país, apresentá-lo sob uma falsa luz, caluniar o socialismo. Nessas condições a tarefa da literatura soviética consiste não só em devolver golpe por golpe toda essa odiosa calúnia e todo ataque contra nossa cultura soviética, contra o socialismo, mas ainda em fustigar e atacar corajosamente a cultura burguesa que está num estado de marasmo e corrupção.
Por. mais bela que seja a forma externa das obras dos escritores burgueses atuais da Europa Ocidental ou da América, dos empresários cinematográficos ou dramáticos,, eles não saberão, salvar ou reerguer sua cultura burguesa, pois que esta está a serviço da propriedade privada capitalista, a serviço de interesses egoístas, de . uma sociedade privilegiada burguesa. Toda a multidão de escritores, de empresários burgueses, procura desviar a atenção das camadas progressistas da sociedade das questões candentes da luta política e social, e de orientá-la para uma literatura e uma arte apolíticas, repletas de gangsteres, de figurantes das variedades, da apologia do adultério e das façanhas de toda sorte de aventureiros e velhacos.
Por acaso nos convém, a nós, representantes da cultura soviética progressista, patriotas soviéticos, esse papel servil diante da cultura burguesa ou o papel de seus discípulos? É nossa literatura, refletindo um. regime mais evoluído que qualquer regime burguês-democrático, uma cultura muitas vezes superior a qualquer cultura burguesa, que tem o direito de ensinar a outros uma nova moral humana. Onde encontrarei um povo e um país como os nossos? Onde encontrarei essas notáveis virtudes de homens de que deu prova nosso povo soviético na Grande Guerra Patriótica e de que dá prova diariamente. em seu trabalho, tendo passado à restauração e ao desenvolvimento pacíficos da economia e da cultura? Cada dia que se passa vê elevar-se mais nosso povo. Não somos mais hoje o que fomos ontem, e amanhã não seremos mais o que somos hoje. Não somos mais os russos de antes de 1917 e a Rússia não é mais a mesma, como não o é nosso caráter. Mudamos, crescemos com essas gigantescas reformas que modificaram radicalmente o aspecto de nosso país.
Mostrar essas grandes virtudes novas dos homens soviéticos, mostrar nosso povo, não somente como é hoje, mas como será amanhã iluminar com um projetor o caminho que está à frente, — tais são as tarefas de todo escritor soviético honesto. O escritor não pode ficar a reboque dos acontecimentos, deve marchar na vanguarda do povo, mostrando-lhe o caminho de seu desenvolvimento! Inspirando-se nos métodos do realismo socialista, estudando conscientemente e atentamente nossa, realidade, esforçando-se por penetrar mais profundamente na essência de nossa evolução, o escritor deve educar o povo e armá-lo ideologicamente. Apontando os melhores sentimentos e qualidades do homem soviético, revelando-lhe seu futuro, devemos ao mesmo tempo mostrar ao nosso povo aquilo que.ele não deve ser, devemos fustigar as remanescências do passado, as remanescências que impedem o homem soviético de marchar para frente. Os escritores soviéticos devem ajudar o povo, o Estado, o Partido a educar nossa juventude corajosa e confiante em suas forças, sem temer quaisquer dificuldades.
Sejam quais forem os esforços dos políticos e dos escritores burgueses para esconder de seus povos a verdade pura, os resultados obtidos pelo regime e a cultura soviéticos, apesar de todas as suas tentativas de erguer uma cortina de ferro, através da qual a verdade sobre a União Soviética não possa penetrar, de diminuir a verdadeira envergadura da cultura soviética — todas essas tentativas estarão fadadas, ao fracasso. Conhecemos muito bem. a força e a supremacia de nossa cultura. Basta lembrar os sucessos estupendos de nossas delegações culturais no estrangeiro, nossa parada de cultura física, etc.. Acaso cabe-nos, a nós, prosternar-nos servilmente diante do estrangeiro ou aquartelarmo-nos na defensiva?
Se o regime feudal, e em seguida a burguesia, conseguiram cm seu período de florescimento criar uma arte e uma literatura para consagrar um novo regime e proclamar seu brilho, tanto melhor poderemos nós criar, graças a nosso novo regime socialista, que representa o que há de supremo e de melhor na história da civilização e da cultura humanas, a literatura mais progressista do mundo que sobrepujará as melhores obras do passado.
Camaradas, que quer e exige o Comitê Central? Quer que os ativistas e os escritores de Leningrado compreendam bem que chegou o momento em que é indispensável reerguer consideravelmente o nível de nosso trabalho ideológico. A jovem geração soviética deverá consolidar as forças e o poder do regime soviético socialista, explorando plenamente as forças motrizes da sociedade soviética, com vistas ao florescimento sem precedente de nosso bem estar e de nossa cultura. Para este fim, a jovem geração deve ser educada corajosamente, ardentemente, sem temer obstáculos, marchando ao encontro de todas as dificuldades e sabendo superá-las. Nossos homens devem ser instruídos, ter idéias elevadas, exigências e gostos culturais e morais desenvolvidos. Com esse objetivo, nossa literatura, nossas revistas, não devem manter-se afastadas dos problemas da atualidade, mas, ao contrário, devem ajudar o Partido e o povo a educar a juventude num espírito de fidelidade absoluta ao regime soviético, de abnegação aos interesses do povo.
Os escritores soviéticos e todos os nossos trabalhadores ideológicos ocupam na hora atual a primeira linha, pois que na conjuntura da paz, as tarefas da frente ideológica, e em primeiro lugar dos escritores, longe de se restringirem, intensificam-se ao contrário. O povo, o Estado, o Partido não querem que os escritores se afastem da atualidade, querem que a literatura esclareça todos os aspectos da vida soviética. Os bolcheviques apreciam grandemente a literatura, vêem claramente sua alta missão histórica e seu papel na consolidação da unidade moral e política do povo, na sua fusão e sua educação. O Comitê Central quer que tenhamos uma abundante cultura espiritual, pois que vê nessa riqueza uma das principais tarefas do socialismo.
O Comitê Central está certo de que o setor literário de Leningrado, moral e politicamente são, saberá retificar rapidamente seus erros e ocupar o lugar que lhe cabe na literatura soviética.
Está certo de que as deficiências do trabalho dos escritores de Leningrado serão superadas e que o trabalho ideológico da organização do Partido nessa cidade elevar-se-á no mais breve prazo ã altura atualmente necessária aos interesses do Partido, do povo e do Estado.
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